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Manutenção preventiva – Mais que obrigação, uma questão de responsabilidade socioambiental

Da manutenção corretiva à manutenção preventiva. O que mudou? Veja nesta matéria quais foram as mudanças que ocorreram nos últimos 20 anos e como os Reparadores se adequaram a elas

Por José Tenório da Silva Júnior

Antes de mais nada, quero agradecer imensamente pelo prestígio que você leitor, deu às minhas matérias, sobretudo “Meu carro minha vida”. Por vários meses esta sessão esteve entre as três mais lidas no site Oficina Brasil, tanto em números de visualizações quanto em tempo de permanência na página.

A partir dessa edição, ainda fazendo jus ao trocadilho “Meu Carro Minha Vida”, as matérias deste ano que precede o retorno da inspeção veicular serão voltadas à manutenção preventiva, beneficiando o Reparador automotivo e o proprietário do veículo, sempre com informações ricas em detalhes e de extrema relevância e como costumo dizer, muito nutritivas.

Para começar, quero convidá-lo para uma viagem no tempo, década de 1980. Você lembra quais eram os carros que circulavam pelas ruas do Brasil? Vou te ajudar: Brasília, Fusca, Variante, Kombi, Passat, Opala, Caravan, Chevette, Corcel, Del Rey, Belina, Panorama, Uno, etc. Todos esses carros, apesar de diferentes, têm algo em comum; mecânica simples!

Veja no quadro, uma ficha técnica simplificada que era comum a quase todos:

Alimentação de combustível

Carburador

Sistema de ignição

Platinado

Válvulas no cabeçote

8

Comando de válvulas

Simples, no cabeçote ou no bloco

Tuchos

Mecânicos

Sistemas eletrônicos

Rádio toca-fitas / ignição

De forma geral, o mecânico da época, em sua maioria, formava-se tecnicamente à base do acerto e erro. Muitos deles eram pessoas que tinham grande vontade de aprender e muita afinidade com carros.

Os cursos técnicos para formar mecânicos estavam muito longe da realidade desses iniciantes, praticamente inacessíveis. Sendo assim, o jeito era aprender da forma empírica. E não é que aprendiam mesmo!

Por força das circunstâncias e cultural, a manutenção que se executava era pura e simplesmente, a corretiva. Ou seja, só consertava o que estava quebrado e se o carro apresentasse problemas.

Na década seguinte (1990) com a chegada dos carros com sistema de Injeção eletrônica e a abertura do mercado brasileiro para importações de veículos, as coisas começaram a mudar. Foi quando o Mecânico se viu obrigado a estudar eletrônica, elétrica e até os princípios da própria mecânica. Surge então, o Reparador Automotivo.

Por outro lado, com as novas tecnologias embarcadas nos veículos, o dono do carro, por sua vez, teve que se adaptar ao novo modelo de manutenção, surge então, a Manutenção Preventiva.

O conceito da manutenção preventiva contempla duas práticas:

01 A substituição de algumas peças, antes mesmo que elas apresentem qualquer defeito – baseado na vida útil, seja por tempo ou quilometragem.

02 Revisões periódicas para avaliar as condições gerais do carro, com o propósito de identificar alguma peça que esteja com sinais de desgaste, para que possa ser substituída antes que algum problema mais grave seja causado por ela.

Hoje, felizmente a manutenção preventiva é muito aplicada pelos Reparadores Automotivos e aceita pelos proprietários dos veículos porque é infinitamente melhor que a corretiva, e os motivos são bem palpáveis: menor custo; oferece condições de planejamento de tempo e de dinheiro; evita acidentes; diminui o risco de ficar com o carro quebrado na rua; melhora a qualidade do ar e não compromete a fluidez do trânsito.

Ao analisarmos de forma global, percebemos que a manutenção do veículo tem muito haver com as questões ambientais e sociais, por isso eu costumo dizer que a manutenção preventiva é mais que obrigação, é uma questão de responsabilidade socioambiental! E é nesse mérito que eu vou me aprofundar ao longo desta matéria.

A responsabilidade social e ambiental começa com a aquisição do veículo!

Quando uma pessoa compra um carro, a felicidade é tão grande que ela nem se dá conta da responsabilidade que está assumindo com tal aquisição.

Normalmente o futuro proprietário de um automóvel pensa apenas no quanto vai ter que desembolsar para comprar o carro desejado, mas esquece de adicionar às suas despesas mensais, todos os novos gastos que terá, para ter sua “joia” estacionada na garagem; refiro-me ao IPVA, seguro obrigatório, licenciamento, seguro do veículo e MANUTENÇÃO.

De tanto vivenciar o drama de grande parte dos meus clientes, passei a ensiná-los como fazer a “POUPANÇA DO CARRO”. Veja o modelo da planilha considerando um carro básico.

Provisão de despesas / ano (valores apenas para ilustração de cálculos)

 

Veículo popular Zero km (valor base)

 

R$ 45.000,00

Seguro obrigatório

R$ 65,00

Licenciamento

R$ 85,00

IPVA

R$ 1.800,00

Seguro do carro

R$ 1.500,00

TOTAL DOCUMENTAÇÃO

R$ 3.450,00

 

 

Provisão mensal para a documentação

R$ 287,50

Provisão mensal para a MANUTENÇÃO

R$ 100,00      (R$ 1.200,00 por ano)

 

 

TOTAL MENSAL

(para tirar do salário e guardar na poupança)

 

R$ 387,50

Parcela do financiamento????

 (acrescentar aos R$ 387,50)

Lembrando que esse é o custo total (inevitável) que terá que ser desembolsado anualmente. Porém, se o carro foi financiado o valor da parcela deve ser somado aos R$ 387,50.

Nota: no primeiro ano não será utilizado todo o valor separado para a manutenção, em contrapartida, quando o carro estiver com mais de 30.000 km esse valor de (R$ 1.200,00) será insuficiente para cobrir os gastos com a manutenção anual, por isso, é bom que as “sobras” se acumulem.

Como deu pra perceber, a manutenção deve fazer parte do planejamento financeiro de compra do carro desejado, afinal, para mantê-lo andando e com segurança, é essencial que a manutenção esteja em dia.

Atenção! É importante que esse planejamento seja feito antes mesmo de comprar o carro, porque se você perceber que o valor mensal de R$ 387,50 fará falta no seu orçamento, significa que esse carro não “cabe” no seu bolso!

A responsabilidade de levar o carro para fazer as manutenções

Feito o planejamento, é hora de pensar na responsabilidade que irá assumir ao adquirir o tão sonhado automóvel.

Como sabemos o carro não é autônomo, logo, o proprietário tem total responsabilidade de levá-lo a uma oficina para as devidas manutenções, caso contrário, mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente, o carro vai quebrar! E pior, será naquele lugar inóspito, naquele dia impróprio e naquela hora que não poderia ser!

De que forma a falta de responsabilidade, em relação à manutenção, pode afetar a sociedade e o meio ambiente?

Sociedade

Com anos de experiência e fundamentado em pesquisas, posso afirmar com segurança que a maioria dos carros que quebram nas ruas é por falta de manutenção! De acordo com estudos realizados pela CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) “um carro quebrado por 15 minutos numa via de grande movimento, provoca um trânsito de três quilômetros”. Seja por imprevisto ou desleixo, segundo noticiado no site “metrojornal” em 16/02/2017 às 02:00 “178 veículos quebrados precisam ser retirados das ruas pela CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) para liberar o trânsito de São Paulo. De janeiro a outubro do ano passado, 54.263 veículos foram removidos das vias. Em média, a cada 10, sete são carros e motos (67,8%) e os outros três, caminhões (16,4%) ou ônibus (15,7%)”.

Imagine que, neste trânsito provocado por um carro quebrado, tenha uma mulher em trabalho de parto; uma pessoa precisando de atendimento urgente sob o risco de infarto ou mesmo, um preposto (representante legal de uma empresa em um processo trabalhista); todos perderão o tempo de chegar ao destino e as consequências são, na maioria das vezes, irreversíveis. Difícil não é? Agora imagine se um desses atores fosse você...

Nota: Um carro quebrado numa via, além de deixar os ocupantes do veículo suscetíveis a assalto, pode provocar acidentes.

Meio ambiente

A poluição do ar provocada pelo excesso de gases poluentes que saem dos escapamentos dos carros é alarmante. Segundo a Revista Época (23/09/2013 - 21h05 - Atualizado 26/09/2013 15h44), “em 2011, 17.443 pessoas morreram no Estado de São Paulo em decorrência de doenças influenciadas pela inalação de ar poluído”.

Por experiência, posso afirmar que a falta de manutenção básica é grande responsável pelo aumento dos níveis de emissões dos automóveis. Uma simples falha provocada pelo sistema de ignição, sistema de alimentação de combustível ou mesmo sujeira no corpo de borboleta, pode causar o aumento de até 10 vezes no índice de emissão de gases permitido por Lei.

Fique sabendo: o Catalisador é uma das peças que compõem o escapamento. Tem a função de transformar gases tóxicos, resultantes da combustão do motor, em gases inofensivos; reduzindo assim a emissão de poluentes na atmosfera.

A falta de manutenção permite que vazamentos de óleo atinjam o lençol freático, rios e mares, provocando grandes prejuízos ao meio ambiente e enormes gastos para neutralizar ou minimizar o efeito desses poluentes.

Curiosidade: no primeiro ano (2009) do programa de inspeção veicular em que os carros movidos a álcool e a gasolina foram submetidos, o índice de reprovação era muito grande, as oficinas ficavam lotadas, a maioria dos carros após a manutenção básica passava na inspeção. No segundo ano, a quantidade de carros reprovados caiu pela metade. Isso mostra a eficiência e a real necessidade do programa.

Olhando por esse prisma, acredito que tenha dado pra relacionar a manutenção do automóvel com a responsabilidade social e ambiental que cada proprietário assume ao comprar um carro.

Quais foram as principais diferenças entre os carros fabricados até o início da década de 90 e os que foram fabricados a partir de 1992?

Os carros que possuem carburadores são muito mais simples para efetuar os reparos porque os defeitos são, na maioria das vezes, mecânicos. Entretanto, são mais suscetíveis aos defeitos que fazem o carro para na rua; uma simples sujeira, por exemplo, por menor que seja, pode entupir a passagem de combustível dentro do carburador (Giclê) e se não entra combustível no motor, não há combustão, ou seja, o motor deixa de funcionar. Nesses casos, com um kit básico de ferramentas (chave de fenda, alicate universal, chaves de 10 mm e 13 mm) é possível efetuar a “limpeza” do carburador, na rua mesmo. Para isso, o profissional retira o carburador, desmonta ali mesmo e remove a sujeira que está impedindo a passagem de combustível – em alguns modelos é possível efetuar a limpeza dos giclês sem remover o carburador.

Já nos carros com sistema de injeção eletrônica a coisa é bem diferente.

Os motivos que levam à parada total do motor dificilmente podem ser consertados na rua. Isso porque na maioria das vezes, para sanar o problema, é necessário substituir a peça avariada que provocou a “pane”. E para diagnosticar o defeito é imprescindível a utilização de equipamentos de diagnóstico.

Hoje, para se tornar um Reparador Automotivo, o profissional precisou estudar para aprender: princípios da eletricidade e da eletrônica, interpretação de diagramas elétricos e mecânicos; os princípios e estratégias de funcionamento de diferentes tipos de sistemas de injeção eletrônica, etc.

Para efetuar diagnóstico e reparos em carros com sistema de injeção eletrônica são necessários diversos aparelhos e ferramentas especiais. Só para ter uma ideia, atualmente as oficinas possuem mais de um aparelho de diagnóstico de injeção eletrônica (scanner), porque cada um tem funções que um aparelho não faz e ou outro faz.

As novas tecnologias também estão presentes nos freios, na suspensão, no câmbio e na direção. Aliás, antes havia dois sistemas de direção: mecânica e hidráulica. Hoje, além desses dois sistemas ainda tem o sistema de direção com assistência elétrica e eletro-hidráulica.

Os mais comuns sistemas que fazem parte dessa nova realidade são:

ABS – Antilock Braking System (sistema antitravamento dos freios). É um sistema adicionado ao freio convencional que, por meio de sensores instalados em cada roda, impede o travamento das rodas em situações de emergência.

EBD – Electronic Brakeforce Distribuition - (distribuição eletrônica da força de frenagem). Trata-se de um sistema de controle da força da frenagem nos eixos dianteiro e traseiro. É utilizado como auxiliar do ABS.

BAS - Brake Assist System é um sistema de auxílio de frenagem em urgência, que joga carga máxima no freio quando o motorista pisa no pedal bruscamente. Atua junto com o ABS e o EBD.

ESP - Eletronic Stability Program (programa eletrônico de estabilidade). Tem a função de reconduzir o automóvel à trajetória original em caso de desestabilização.

ACC – Adaptive Cruise Control (controle de cruzeiro adaptativo) é o “piloto automático”. Controla automaticamente velocidade e distância para outros veículos de acordo com a definição do motorista, que não precisa acelerar ou frear, apenas usar o volante.

ASR – Anti Slip Regulator (sistema antiderrapagem). Impede que as rodas da tração escorreguem (derrapem), auxiliando o condutor em acelerações ou em casos de emergência. É uma forma de controle de tração.

De fato, toda essa tecnologia embarcada nos veículos e muitas outras não citadas, tem o objetivo de proporcionar maior segurança, economia de combustível, mais conforto, redução significativa dos índices de poluentes lançados na atmosfera, mas exige maiores cuidados no tocante à manutenção. Porque a falta de manutenção pode desencadear uma série de problemas que serão no mínimo, dispendiosos. Ou seja, se não forem realizados os devidos reparos de prevenção, o “efeito dominó” será inevitável e tornará o custo da manutenção duas, três, até quatro vezes, maior.

No dia a dia, em minha oficina, percebo que os proprietários dos veículos já evoluíram muito, mas ainda há muito trabalho de conscientização que deve ser realizado para que eles percebam o real VALOR da manutenção do veículo, sobretudo a PREVENTIVA.

É notório que muitos não fazem a manutenção como deveriam, por falta de informações básicas sobre como, quando, onde e porque fazer a manutenção preventiva. Atento a isso, nesta nova empreitada, irei explorar o tema dando dicas técnicas e práticas, tanto para o dono do carro quanto para os meus respeitados colegas de profissão, os Reparadores Automotivos.

Considerações finais

Ao longo dos últimos vinte anos uma verdadeira avalanche de tecnologia embarcada nos veículos provocou uma transformação generalizada, tanto na forma de pensar quanto na forma de diagnosticar e de executar a manutenção. Aquela manutenção corretiva que não trazia grandes consequências ficou no passado, hoje, se um carro quebrar na rua, os prejuízos são imensuráveis, seja financeiro, pessoal, social ou mesmo, ambiental.

Para acompanhar toda essa evolução, os então “Mecânicos” se capacitaram fazendo cursos, participando de treinamentos, feiras e workshops; tanto que, hoje, são reconhecidos como Reparadores Automotivos.

Contudo, no tocante à conscientização dos benefícios trazidos pela prática da manutenção preventiva e da necessidade latente de realizar a manutenção preventiva, ressalto a importância do papel do Reparador Automotivo em transmitir ao proprietário do veículo, informações acerca dessa “nova” modalidade de manutenção.

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Um forte abraço e até a próxima matéria!

 

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