Oficina Brasil


Segurança na manutenção do ar-condicionado é uma exigência obrigatória durante o serviço

Não basta conhecer os serviços desenvolvidos na oficina, é preciso também ter a conscientização do uso de equipamentos de proteção individual e saber o grau de risco ao utilizar produtos inflamáveis

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Por José Martins Sanches


Avaliação da Matéria

Depois de ver mais dois incidentes nas redes sociais e um deles foi a explosão de um Fox no distrito Federal no qual estavam fazendo higienização com estas “granadas” comumente vendidas no mercado. (Fig.1)


A outra foi a explosão de uma garrafa destas de fazer flushing em ar-condicionado, o mecânico usava um compressor de geladeira para fazer a pressurização. (Fig.2)


O uso de EPIs como óculos de segurança, luvas e principalmente observar as recomendações dos fabricantes dos equipamentos e produtos são fundamentais para que evitemos acidentes que além de causar danos materiais pode causar ferimentos em pessoas podendo até ser fatais. (Fig.3)


A seguir daremos alguns exemplos de procedimentos que é comum em algumas oficinas, durante os quais estamos correndo riscos de acidentes sérios:
Uma prática comum é a higienização com produtos químicos que são nebulizados nos dutos de ventilação do veículo e a grande maioria contém álcool ou algum produto inflamável. O perigo é que o motor destes ventiladores internos utiliza coletor e porta-escovas que ficam expostos e dependendo do estado deste motor, caso esteja com folga no eixo, escovas muitos gastas ou problemas no enrolamento, pode provocar faíscas em excesso podendo ocorrer um arco voltaico. (Fig.4)


Diante deste cenário já podemos imaginar o que pode ocorrer, pois temos um veículo fechado, cheio de produto inflamável em forma de uma névoa e uma fonte de ignição. Estes higienizadores em spray são mais perigosos ainda pois tem também o propano como propelente, que é altamente inflamável.
Particularmente não me arrisco a usar estes tipos de produtos em minha oficina, mas para aqueles que mesmo com estes alertas querem continuar usando, recomendo deixar frestas nos vidros e alguma porta só encostada sem estar nem na primeira trava de fechadura para que caso ocorra a ignição deste produto a expansão dos gases da combustão não destrua o veículo e também evitar ficar perto do veículo enquanto faz o procedimento.
Uma boa opção é usar produtos que não tenham na sua composição elementos inflamável na sua composição e outra opção muito usada hoje é o uso da oxisanitização (higienização feita com o ozônio) muito eficiente e totalmente ecológica sem risco para o meio ambiente e para as pessoas.
Outra prática comum é de pressurizar o sistema de ar-condicionado com ar comprimido em busca de vazamentos e a Dupont, que é um dos maiores fabricantes de gás refrigerantes do mundo, condena esta prática na sua ficha técnica de segurança do gás refrigerante R134a.
Veja o que está na ficha com relação a isto: 


“Esta substância não é inflamável no ar a uma temperatura ATÉ 100°C (212°F) em pressão atmosférica. No entanto, misturas desta substância com altas concentrações de ar a pressão e/ou temperatura elevada podem se tornar combustíveis na presença de fonte de ignição. 
Esta substância também pode se tornar combustível em um ambiente enriquecido de oxigênio (concentrações de oxigênio maiores do que o ar). Se uma mistura contendo esta substância e ar, ou esta substância em uma atmosfera rica em oxigênio, se tornar combustíveis depende da inter-relação de temperatura, pressão e proporção de oxigênio na mistura. 
Em geral, não se deve permitir a existência desta substância com o ar acima da pressão atmosférica ou em altas temperaturas, ou em um ambiente rico em oxigênio. Por exemplo, esta substância não deve ser misturada com o ar sob pressão para teste de vazamento ou outros fins.”


Como sabemos, mesmo depois de realizada a remoção do gás refrigerante, o sistema ainda libera um pouco de gás que está impregnado principalmente no óleo lubrificante, além da recomendação de não usar o ar comprimido pela umidade que tem no ar atmosférico.
Tem alguns mecânicos que trabalham com ar-condicionado que usam filtros secadores para reter a umidade do ar para não contaminar o sistema em que está sendo feita a manutenção mas, pelos testes que eu fiz com medidores de umidade, foi constatado que dependendo da época e com a quantidade de umidade no ar, tem que trocar o filtro secador com mais frequência, o que torna mais caro que a utilização do nitrogênio, sendo que uma das reclamações para não utilizar o nitrogênio é justamente o custo dele.
Para quem quer mesmo assim continuar usando ar comprimido para este fim, recomendamos efetuar um vácuo no sistema de no mínimo 30 minutos para que evapore todo resíduo do gás refrigerante que possa ter dentro do sistema antes de pressurizar.
Vejo também que usam estes motores de geladeiras para este fim sem reguladores de pressão e sem uma válvula de segurança, ficando este controle da pressão toda para o operador do equipamento que em um descuido qualquer, pode exceder a pressão e causar algum dano ao veículo ou ao equipamento e até mesmo causar acidentes. (Fig.5)


Aqueles mecânicos que querem continuar usando compressores de geladeira, recomendamos que adaptem pulmões (reservatório de ar), pressostato e uma válvula de segurança. 
O cilindro de nitrogênio também nunca poderá ser utilizado sem um bom regulador de pressão, pois dentro destes cilindros temos pressões que podem chegar próximas de 200 bar quando cheios e os reguladores oferecem toda segurança necessária.
Outra prática que não podemos mais fazer nos veículos atuais é pressurizar o sistema com pressões às vezes que passam de 350 psi, temos de tomar cuidado porque as culturas de manutenção de alguns anos atrás não se aplicam mais nos veículos modernos e um dos motivos é que hoje os evaporadores têm formatos não tubulares como os antigos e paredes que chegam a ter menos de 0,4mm, o que os tornam muito frágeis e facilmente deformáveis sob pressões elevadas. (Fig.6) 


Sem contar que, testar estes evaporadores fora do veículo com pressões tão elevadas pode causar acidentes e não vejo a razão do uso de pressões tão elevadas nestas porque no sistema a pressão mais alta que este componente recebe é quando o ar-condicionado está parado e para ela chegar próximo de 120 psi tem de estar um dia muito quente e se houve vazamento no evaporador ela ocorreu a uma pressão inferior a esta.
Dois motivos para usarmos uma pressão mais baixa em testes de vazamentos:
1)    Outro componente pode ser danificado como as válvulas de expansão tipo block, pois esta pressão na linha de baixa ataca diretamente a membrana da câmara termostática dela fazendo com que ela deforme e perca a calibração de fábrica, tornando deficiente ou mesmo até inoperante.
2)    O selo do compressor é um componente que às vezes só vaza com pressão bem menor pois quanto mais pressão em cima dele mais comprime os retentores contra o eixo fazendo que ele pare de vazar, pois normalmente vaza dinamicamente quando a pressão da câmara dianteira de compressor está com pressões abaixo de 40 psi.
A linha de alta pressão está preparada para receber pressões mais que 450psi, mas vamos raciocinar... se tiver vazamentos vai vazar em qualquer pressão, só vai demandar mais tempo para percebermos a queda de pressão,  minha recomendação é que use uma pressão mais baixa, aqui em nossa oficina padronizamos 120 psi, é uma pressão segura, economiza nitrogênio e não corre o risco de danificar nada, principalmente os manifolds que estamos usando para fazer testes, já que no manômetro de baixa na maioria deles tem graduação até 120 psi. (Fig.7)


Quando comprar garrafas de aplicação de produtos para flushings procure verificar no manual delas a pressão que você pode estar aplicando e dê preferência por garrafas que tenham válvulas de segurança e nunca usar elas em uma fonte de geração de pressão seja qual for, sem um controle preciso de pressão, porque em algum momento alguém pode se descuidar e provocar um acidente. (Fig.8)


As botijas de gás refrigerante ou de 141b sempre devem ser armazenadas em locais ventilados e livres da exposição solar e manipular sempre com luvas e óculos de segurança e nunca em locais confinados. 

 

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