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Qual fluido devo utilizar nas transmissões automáticas dos veículos dos meus clientes?

Quem recomenda o tipo de fluido aplicado nas transmissões é o fabricante do veículo, consta no manual do carro na parte que trata do plano de manutenção, mas isso muda durante os serviços executados

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Por Carlos Napoletano


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Temos observado, no decorrer de mais de 30 anos, a constante briga entre fabricantes de produtos para as montadoras e os fluidos para transmissões automáticas do mercado de reposição (onde geralmente compramos e utilizamos os fluidos), e temos motivos para acreditar que esta briga tomou um novo rumo recentemente.

Por vários anos os fabricantes de produtos originais e fornecedores para montadoras tem tido suas dores de cabeça porque o mercado de reposição das transmissões automáticas e oficinas especializadas independentes têm insistido em fazer suas próprias decisões sobre o que usar e como atender às necessidades das diferentes aplicações originais sem ter de recorrer aos fabricantes originais de peças e lubrificantes.

As tentativas por parte das montadoras de forçar o cliente a atender suas exigências por negar garantia do veículo em caso da não utilização de produtos originais tem perdido força no mercado, devido à grande divulgação feita pelas redes sociais e pelo esforço das empresas fabricantes de peças e lubrificantes equivalentes hoje em dia. Devido a este fato, os fabricantes têm formado grupos de “vigilantes” que de tempos em tempos emitem pareceres sobre lubrificantes (óleos de motor e ATFs) comprados e examinados quanto à sua qualidade e precisão de fórmula.

Estes grupos de “vigilantes” utilizam um critério de exame das fórmulas que é influenciado pelas montadoras com vistas a aplicações específicas com pouca consideração dada ao conceito de “equivalência” dos fluidos ou de liberdade de escolha por parte dos técnicos. Quando observam alguma coisa de que “não gostam”, (mais precisamente quando algo não está alinhado com o critério das montadoras), eles publicamente castigam o fabricante envolvido e tentam desacreditá-lo junto ao público. Isto aconteceu recentemente com vários fabricantes de fluido e peças e o ponto a que nos atemos é quanto a condenação de um ótimo ATF, não porque o fluido fosse ruim, mas porque eles não gostaram das aplicações listadas em suas características no rótulo. Inicialmente, isto pode parecer uma coisa boa, porque ninguém deseja colocar em seu veículo um produto inferior que poderia danificar nossa transmissão, e que seja vendido a um público desavisado. Muitos rótulos de produtos são vagos em suas especificações e trazem benefícios questionáveis e inclusão de aplicações que normalmente não são possíveis.

Estas são coisas que podem ser mantidas em padrões elevados e os países estão exigindo que os rótulos atendam a padrões mais rigorosos quanto a precisão, aplicação e requisitos de desempenho.

Tudo isto soa muito bem até que comecemos a entender que os fabricantes estão tomando decisões sobre aplicações do produto e o que é especificamente requerido por eles, sem levar em conta o fato que a maioria dos fluidos e peças recomendadas pelas montadoras não são encontrados facilmente no mercado de reposição e que atendam nossas necessidades. (Este é o ponto a que nos referimos, quando os “vigilantes” tomam decisões baseadas somente nos critérios das montadoras).

Os argumentos utilizados pelas montadoras é que muitas oficinas prestadoras de serviço estão obcecadas pelo lucro fácil e querem utilizar soluções mais baratas que não atendem aos “requisitos de equivalência” dos fabricantes de transmissões. Pode ser verdade para alguns, mas não para os membros da comunidade de reparadores com os quais estamos em contato diariamente. Os reparadores conscientes procuram produtos que atendam às necessidades dos clientes, agreguem valor ao serviço e o mais importante, não causem problemas que resultem em perda financeira para eles ou para seus clientes.

Muitas oficinas de renome utilizam produtos em serviços que excedem os requisitos de desempenho dos fluidos recomendados pelas montadoras, atendem muito melhor às necessidades dos clientes e seu ciclo de serviço, mas ainda são encarados com desconfiança pelos concessionários das marcas como “fluido impróprio”.

Sabemos disto porque observamos por experiência que muitas concessionárias “condenam” uma transmissão porque perceberam que a transmissão sofreu uma troca de fluido em uma oficina fora de sua rede e não foi utilizado o fluido recomendado pela montadora. São as mesmas políticas corporativas que te dizem que o fluido da transmissão “nunca deve ser trocado” segundo as montadoras. Normalmente os concessionários e a montadora dão uma garantia de 150.000 quilometros desde que o fluido da transmissão não seja substituido.

Então, ao ler o livrete de garantia, descobrimos que o intervalo de troca do fluido, de 150.000 quilometros, somente se aplica se você utilizar o veículo em serviço “normal”. Caso você utilize o veículo em serviço “severo”, o intervalo de troca do fluido deve ser cortado pela metade, para 75.000 quilometros.

Daí perguntamos: O que constitui “serviço severo?” É a maneira a qual a maioria de nós utiliza nosso veículo ou seja, direção em estrada, rebocar coisas, utilizar o veículo sempre com lotação máxima, dirigir quando a temperatura da transmissão está acima de 90ºC ou abaixo de 0ºC, dirigir fora de estrada, dirigir em terrenos poeirentos, e assim por diante. Podemos ter então uma idéia do que o fabricante menciona como “uso severo”. Para resumir, é maneira como a maioria de nós dirige nossos veículos no dia a dia. Quando relacionamos isto com fluidos de transmissão lançados paralelamente aos fluidos recomendados pelas montadoras em nome da eficiência (não durabilidade), não é de estranhar que nós tomemos nossas próprias decisões sobre os períodos recomendados de troca de fluido e tipos de fluido baseados em necessidades reais, e não baseados nas necessidades da montadora de gerar lucros por reparar as transmissões quando elas falham, baseado em seus conselhos.

A maioria das aprovações de fluido são outorgadas quando se atende às especificações da montadora em seu rótulo comercial ao invés de informações técnicas tais como viscosidade a 100ºC, ou tipo de óleo base, ou modificador de atrito ou mesmo desempenho em tempo frio; informações valiosas que poderiam permitir decisões baseadas em propriedades físicas, expectativas de desempenho e experiências do mundo real.

Como estas tendências estão se curvando aos fabricantes de fluidos originais e aos “vigilantes” de plantão, presumimos, como consumidores ou provedores de serviço, que falta sofisticação e educação para selecionar o que precisamos, ao contrário do que eles querem que compremos (deles se possível). Temos registro de que, alguns fluidos hoje recomendados pelas montadoras chegam à casa de R$ 760,00 o litro, num veículo que utiliza por volta de 12 litros de fluido para uma troca completa.

Esta afirmação pode soar muito dura até que observemos mais de perto seus problemas (tais como falha de transmissões baseadas em fluido incorreto utilizado) e achar que este realmente não é um problema tão grande assim. Uma pesquisa feita nos Estados Unidos recentemente sobre danos a transmissões causados por fluidos não recomendados foi menor do que 1% (um porcento) no total. Nada mau para uma indústria que tem baseado suas substituições de fluido em preço e adequabilidade. Não que não haja problemas.

A chegada de três tipos diferentes de transmissões automáticas, a tradicional com engrenagens epicicloidais, a automática CVT e a automatizada de Dupla Embreagem (DCT) complicaram as coisas um pouco mais. Os desafios das transmissões nos veículos atuais que estão se adequando às novas tecnologias e fontes de energia diferentes ainda necessitarão de serviço.

Continuaremos a selecionar soluções de serviço baeadas em valor, eficiência, tipo de serviço e expectativas de durabilidade utilizando os princípios próprios de lubrificação baseados na ciência, engenharia e experiência e não em requisitos dos fabricantes orientados pelo mercado ou “vigilantes” desinformados. Nossa esperança é que os fabricantes cheguem a esta conclusão. Provedores de serviço e consumidores se mantêm longe destas questões e os “vigilantes” podem se guiar cada vez mais por dados reais e não “recomendações” das montadoras.

Mais importante do que uma marca recomendada, os técnicos têm de se ater à qualidade e formulação dos fluidos e à necessidade de substituir o fluido regularmente, normalmente a cada 50.000 quilometros no máximo, sob as condições de uso em nosso país. As afirmações das montadoras de que a transmissão não necessita de troca de fluido não tem base técnica para se manter, pois os fluidos lubrificantes, sejam quais forem, se degradam com o uso e devem ser trocados regularmente para proteção da transmissão automática, assim com qualquer outra máquina ou dispositivo.

As informações, treinamento e atualizações constantes dos prestadores de serviço ajudarão o mercado a se proteger dos “papas” das montadoras também nestes quesitos de lubrificação e desempenho, e fornecer um serviço de boa qualidade e de menor custo aos clientes. www.apttabrasil.com

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