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Saldo de um trilhão de dólares por ano

É essa soma anual que a economia circular seria capaz de gerar caso fosse plenamente implementada em todo o mundo

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Por Da redação


Avaliação da Matéria

Estudos indicam que cada pessoa produz, em média, cerca de 1,3 quilo de resíduos sólidos por dia. É uma medida assustadora para o meio ambiente e um desperdício absurdo sob o ponto de vista econômico. Significa que, a cada 24 horas, mais de 20 mil toneladas de sucatas são descartadas só em uma megalópole como São Paulo. De acordo com levantamento do IBGE, a cifra de lixo inorgânico chega a 183 mil toneladas por dia no Brasil. A extraordinária soma de dinheiro jogado fora e o prejuízo ambiental são incalculáveis. 

Se o sistema produtivo mundial seguir funcionando desta forma linear por mais duas décadas, da maneira como sempre foi feito (matéria-prima que é transformada em produtos que são usados e, ao se estragarem, descartados), antes mesmo de se esgotar os recursos naturais para sua manufatura, certamente vamos colapsar a capacidade humana de se descartar lixos de maneira minimamente segura.  

Em muitas partes do planeta, especialmente nos países do Primeiro Mundo (Europa, Estados Unidos e Canadá mais acentuadamente), há mais de uma década vem se fortalecendo o conceito de economia circular que prevê, basicamente, transformar resíduos novamente em recursos e devolvê-los ao sistema de produção. É a boa e velha reciclagem elevada a uma escala, digamos assim, mais industrial. Ou o ser humano, diante do risco de se dar muito mal em um futuro bem próximo, buscando aprender com as lições da mãe natureza que recicla 100% de tudo que produz há bilhões de anos.  

A economia circular é o único caminho para escaparmos de um iminente caos ambiental com consequências catastróficas para toda cadeia produtiva e logística. Daqui para frente não se trata mais de deflagrar ações marqueteiras apenas para agradar ambientalistas, virou questão de sobrevivência mesmo.  

No Brasil já há a Lei Federal 12.305/2010, correspondente à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) que prioriza a reciclagem (transformação dos resíduos envolvendo a alteração de suas propriedades físicas, físico-químicas ou biológicas, com vistas à transformação destes em insumos ou novos produtos), a logística reversa (instrumento de responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos), a destinação final adequada dos resíduos, a eliminação dos lixões e outras formas de acondicionamento a céu aberto. A lei chegou a prever o final de 2014 como prazo para tudo isso funcionar perfeitamente bem. Mas a crise brasileira atrasou todo processo e a tradicional falta de fiscalização de leis no Brasil é o agravante que pode acrescentar mais essa lei à triste estatística nacional de regras que existem mas que ninguém (ou alguns poucos) as cumpre.  

Até porque a lei, por si só, acaba deixando o problema exclusivamente para as oficinas mecânicas. Diz Luiz Sergio Alvarenga, diretor executivo do Sindirepa Nacional (Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios do Estado de São Paulo): “a lei jogou toda responsabilidade para dar destinação aos resíduos às oficinas mecânicas visto que a responsabilidade solidária praticamente passou ao largo da indústria de autopeças e comércio”.  

Alvarenga diz que um dos caminhos estudados pelo Sindirepa para minimizar o problema do descarte e dividir a responsabilidade também com os proprietários de automóveis é instituir uma taxa ambiental que as oficinas passariam a cobrar para realizar serviços que preveem substituição de componentes.  Outro ponto que a entidade quer pressionar parlamentares é para regular a venda de peças pelo e-commerce. “Muitos sites vendem peças sem qualquer critério fiscal, ambiental e de segurança”, justifica. 

A boa notícia é que, independente do que rege a lei, muitas empresas e setores da sociedade já se organizam espontaneamente no sentido de alinhar o Brasil com a tendência mundial de maior engajamento com a moderna economia circular e, particularmente, com a logística reversa. O setor automotivo é um bom exemplo que segue na dianteira desse processo no País.  

Pessoal de oficinas mecânicas, revendas autorizadas e lojas de peças já está habituado com um termo remanufatura. Mas os brasileiros em geral ainda confundem peças remanufaturadas com recondicionadas. Eduardo Oliveira Neves, diretor Técnico da Oficina Nipo Brasileira, afirma que é bem simples entender a diferença: nas primeiras, os itens desgastados são substituídos por novos, já nas segundas, é feito um reparo no item desgastado.  

Grosso modo dá para se explicar assim: uma peça recondicionada ganha uma sobrevida, já um componente remanufaturado ganha uma nova vida. Ambos, contudo, são considerados procedimentos ambientalmente corretos e se inserem dentro do conceito da economia circular. Neves pleiteia que mais componentes remanufaturados estejam disponíveis nas prateleiras das autopeças. “A gente até orienta o cliente que é mais interessante, econômico e ecológico usar componentes remanufaturados, mas o problema ainda é a dificuldade de encontrá-los nas lojas especializadas”. 

Diversas montadoras de veículos disponibilizam no mercado componentes remanufaturados que, além de ecológicos, normalmente são cerca de 40% mais em conta que seus similares zero quilômetro. A remanufatura automotiva começou no Brasil há mais de 20 anos com pequenas peças, como sistemas de embreagens, mas hoje o número de componentes é muito mais abrangente chegando a itens mais complexos como motores e transmissões.  

Transmissões remanufaturadas - A GM lançou agora sua transmissão automática remanufaturada. É um avanço e tanto para a economia circular quando uma montadora desse porte e com frota circulante de milhares de veículos entra no processo. “Falando sobre sustentabilidade, o ganho fazendo a remanufatura é a redução no consumo de água, de energia, matéria prima e espaço de aterro”, comenta Walter Salim Junior, gerente da Engenharia do Pós-Vendas responsável por manufatura da GM.  

E para o consumidor que sempre prefere pensar no próprio bolso, as vantagens de um componente remanufaturado são muito palatáveis. “Entendo que o maior benefício que os clientes vão ter com esse produto é a velocidade de atendimento - por estarmos trabalhando num processo à base de troca - e também na economia, com 60% do preço do um produto novo. A união desses fatores (sustentabilidade, qualidade do produto, agilidade no atendimento) é o sucesso desse negócio”, comenta Salim Junior. 

Dinheiro jogado fora

A remanufatura é apenas um dos muitos caminhos da economia circular. De acordo com Flávio Hourneaux Júnior, professor do Departamento de Administração da USP, “ não é só de reciclagem que é feita a economia circular, é preciso incluir também a troca de materiais ou fontes de energia não renovável por renováveis, a distribuição ou compartilhamento de produtos e serviços (como os casos de aplicativos de motoristas), a redução e otimização de resíduos na produção e no consumo (impulsionada pela Política Nacional de Resíduos Sólidos), a virtualização de produtos e serviços (por exemplo, livros e música digitais), e a aplicação de novas tecnologias embarcadas em produtos (servitização e indústria 4.0)”. 

Para o professor da USP, a economia circular se baseia na minimização (ou possivelmente eliminação) de perdas nos processos de produção e consumo. “Do ponto de vista econômico, é sabido que jogar material fora é jogar dinheiro fora”, afirma Hourneaux. Estudos acadêmicos apontados pelo professor dão conta que, com a ativação da economia circular, cerca de um trilhão de dólares seriam economizados por ano em todo o mundo.  

É fundamental mensurar vantagens financeiras proporcionadas pela economia circular particularmente para um país como o Brasil que mal consegue se dar bem praticando a tradicional e perdulária economia linear. A pesquisadora Graziela Galvão, do Departamento de Engenharia de Produção da Poli-USP, que vem desenvolvendo estudo sobre sustentabilidade, economia circular e gestão de projetos, acredita que um dos maiores percalços para se implantar a economia circular no Brasil seja econômico. “Nosso país nunca conseguiu se firmar em termos de crescimento econômico. Até mesmo os sinais positivos que observamos no passado, não se sustentaram por muito tempo, tendo sido logo tratados como ‘voos de galinha’. Pior, hoje ainda estamos vivendo os reflexos de um cenário economicamente recessivo, o que se torna particularmente desafiador à implementação da economia circular no País”. 

Além disso, de acordo com a estudiosa, a cultura de sustentabilidade não parece ter permeado a nossa sociedade de forma consistente. “As iniciativas, em geral, são isoladas e não parecem ser reflexo de conscientização, mas arriscaria dizer que até carregam certa superficialidade, como que uma resposta politicamente correta. Desta forma, o primeiro grande desafio seria uma conscientização de valores sustentáveis mais primários”. 

Já para Jefferson Germano, presidente da ANRAP (Associação Nacional dos Remanufaturadores de Autopeças), os problemas econômicos do Brasil podem, de certa forma, alavancar ainda mais os negócios com componentes remanufaturados. “Com a recessão econômica, os usuários preferem um componente 40% mais em conta e com a mesma qualidade e garantia de um novo”, afirma.  

O mercado automotivo brasileiro, um dos maiores da América Latina, ainda sofre os impactos da retração econômica que se iniciou há alguns anos e desencadeou um lento crescimento do setor. Em meio à retração, empresas associadas à ANRAP apoiam iniciativas de reaproveitamento, reciclagem e reuso de recursos na cadeia de produção de peças. “A disseminação do conceito da remanufatura é considerada o maior ganho da ANRAP”, diz Germano. 

 

 

 

 

Modelo em ascensão

 Segundo a ANRAP, o setor brasileiro de peças remanufaturadas cresce a uma média de 10% ao ano. No mundo, os produtos remanufaturados correspondem a 16% do mercado de pós-venda. No entanto, a participação no Brasil é de apenas 6%. Na América do Norte, região com perfil de consumo parecido com o do Brasil, essa participação chega a 20%. “O mercado brasileiro de produtos remanufaturados tem potencial para atingir um percentual semelhante ao global até 2020”, comenta o presidente da entidade. Mundialmente, mais de 110 indústrias reciclam produtos, incluindo o setor automotivo; equipamentos elétricos, médicos e de comunicação. 

De acordo com Giovana Monteiro Gomes, engenheira ambiental e pesquisadora na USP, para a economia circular funcionar bem no Brasil ou em qualquer país, é preciso que se aplique de maneira eficiente a metodologia “C2C” (termo em inglês “cradle to cradle” – do berço ao berço em tradução literal). Essa metodologia surgiu na Holanda, um dos países onde a economia circular é mais avançada, e vem se disseminando em todo o mundo. “No Brasil já existem empresas sérias que prestam consultorias para se implantar esta metodologia aqui”, afirma a cientista.  

“São os insumos industriais que alimentam o ciclo técnico de uma economia circular e aliados a novos modelos de negócio, como remanufatura e extensão da vida útil de produtos, são essenciais para que esse novo modelo econômico prospere”, comenta Giovana que se mostra otimista com relação ao futuro desse novo modelo econômico no Brasil. “Acredito que estamos em um processo crescente, e bastante animador, de conscientização da Indústria Brasileira. O mercado brasileiro está interessado no tema e disposto a assimilar e aplicar novos conceitos e explorar novas práticas”.  

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