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Volkswagen Parati GTI 16V, uma perua capaz de tirar você do sério e levá-lo a um passeio aos 200 km/h

Dona de um estilo único e diversas soluções mecânicas de ponta, a Parati GTI 16V mostrou que um veículo familiar podia ser uma aula de emoção

Por Da redação

Lançada em julho de 1982, a Parati foi o terceiro membro da bem sucedida família BX. Mesmo sendo idealizada como um veículo familiar, a peruinha da Volkswagen sempre demonstrou uma clara vocação esportiva. Talvez esse fosse um dos segredos de seu sucesso comercial. Afinal de contas, a versão SW do Gol, ainda na geração “quadrada”, detinha quase 50% das vendas desse segmento, sendo o 12º veículo mais vendido em nosso mercado no ano de 1995. 

Ainda na primeira geração, houve até um ensaio de fábrica para explorar sua vocação esportiva, com o lançamento da versão GLS que trazia alguns dos itens mais desejados da época, entre eles os bancos dianteiros Recaro, faróis de neblina, além do famoso volante de “quatro bolas”. O motor 1,8 litro de comando “manso” entregava 96 cv a 5.200 rpm e torque máximo de 15,3 m.kgf a 3.400 rpm, na versão movida a etanol, esse conjunto motriz conferia ao modelo ótimos números de desempenho como velocidade máxima de 170 km/h e aceleração de 0 a 100 km/h em 11,5 segundos.  

A segunda geração da Parati apresentada em outubro de 1995 fazia parte do projeto AB9. Tinha como característica principal a plataforma ampliada em 11 cm na distância entre-eixos. As linhas, arredondadas e agradáveis, revelavam bom projeto no perfil do capô, que escondia a posição longitudinal do motor (contribuía para isso a instalação do propulsor recuado em 3 cm em relação ao antigo). O emprego de um desenho mais suave, em comparação ao anterior de formas retilíneas, rendeu o apelido de “bolinha”. As formas arrendadas colaboravam para a redução no coeficiente de arrasto aerodinâmico que passava de Cx 0,45 para 0,34.  

Internamente havia mais espaço para os passageiros do banco de atrás e a cabine estava mais arejada graças à ampla área envidraçada. Nas laterais o destaque ficava por conta das três janelas, sendo que o vidro central era agora basculante, o que aumentava o conforto dos ocupantes das extremidades. O vão de acesso ao porta-malas era maior e o estepe estava posicionado no piso, liberando mais espaço para a bagagem. 

A gama de versões foi mantida: CLi, GLi e a topo de linha GLSi. A versão GLSi enfim recebia o consagrado motor AP 2000, com injeção eletrônica multiponto, o mesmo usado no Gol GTI desde seu lançamento em 1989. O trem de força disponibilizava 109 cv a 5.250 rpm e torque máximo de 17,0 m.kgf a 3.000 rpm. Acoplado ao motor estava o consagrado câmbio manual de cinco marchas de engates curtos e precisos. A caixa de marchas era a mesma adotada no Gol GTI, mas com a relação de quarta e quinta mais longa, para favorecer a economia de combustível. A velocidade máxima era de 187 km\h e a aceleração de 0 a 100 km\h em 12,3 segundos. 

Embora o desempenho da Parati GLS dotado de motor de 2 litros fosse convincente, os diretores da Volkswagen enxergaram um nicho de mercado que poderia ser explorado por um modelo que iria apelar mais para o lado emocional do que o racional. 

SPORT WAGON  BRASILEIRA 

 No início dos anos de 1990 as peruas (termo usado aqui Brasil), começaram a sofrer a concorrência das minivans. Embora as minivans tivessem o centro de gravidade mais alto, suspensão macia e até mesmo um jeitão careta, a verdade foi que esses modelos conquistaram inúmeros adeptos pela praticidade, posição de guiar mais alta, além de poderem transportar até sete passageiros.  

Foi neste contexto que surgiram as primeiras Station Wagon preparadas de fábricas como a alemã Audi RS2 Avant, lançada em julho de 1994, feita em parceria com a Porsche. O modelo era combinação da versatilidade das peruas da família Avant com a técnica apurada do esportivo 911, é resultado foi um carro que virou lenda: debaixo do capô o consagrado motor Audi de cinco cilindros foi equipado com uma turbina KKK para produzir 315 cv. As rodas, pneus e freios vieram dos Porsche. E provida da tração total Quattro, a perua RS2 ganhou fama de poder acompanhar qualquer carro esporte contemporâneo, tanto em estradas como em pistas de competição.  

Ao lançar o Gol GTI 16V em 1995, já era previsível que a Volkswagen estenderia o belo conjunto mecânico à Parati. Os acertos dinâmicos da perua começaram a serem feitos no ano seguinte. Entretanto em 1997 a Fiat Palio Weekend assumia a liderança de vendas no segmento de Station Wagon, no qual a Parati era líder desde seu lançamento em 1982. A Volks, para recuperar o terreno perdido e dar uma nova imagem ao seu veicular familiar, apresentava no início de 1997 a Sport-Wagon da família AB9: Parati GTI 16V. 

O modelo que guardava ainda o frescor de novidade trazia os acessórios de personalização do irmão Gol GTI 16V, e a sua delicada aparência familiar original foi transformada em um estilo atraente e agressivo. A começar pela bela bolha no capô, um recurso que virou marca registrada dessa família. Havia um pequeno aerofólio sobre o vidro traseiro, com a terceira-luz de freio integrada. Para-choque dianteiro com spoiler (igual ao do Gol), as saias laterais e por fim as rodas de liga leve aro 15 polegadas, que permitiam ver as pinças dos freios – sempre um charmoso detalhe aplicado a modelos esportivos que fechava o pacote estético externo. 

Internamente o destaque ficava por conta dos bancos esportivos Recaro, com regulagem de altura do assento e apoio móvel para as coxas. Seguindo a versão hatch, a Parati GTI 16V também oferecia como opcional os bancos, laterais de portas, manopla de câmbio e volante forrados em couro. Nessa opção de acabamento, o cliente tinha à disposição a combinação entre o couro preto e vermelho, quando a cor externa fosse o vermelho Dakar. A lista de opcionais incluía ainda alarme com acionamento a distância e toca-CD 

O painel de instrumentos com fundo branco dispunha de velocímetro com marcação até 240 km/h, com hodômetro total e parcial, ambos analógicos. À esquerda, havia um conta-giros até 7.000 rpm, com escala vermelha a partir de 6.400 rpm. À direita, complementando o grupo, estavam alojados o termômetro e nível de combustível, além das luzes de advertência de queda na pressão do óleo e indicador de faróis altos. 

MECÂNICA APURADA 

Consciente de que uma Parati esportiva deveria brilhar, a Volkswagen tratou de equipar o modelo com o mesmo trem de força de 2 litros do Gol GTI 16V. Importado parcialmente montado da Alemanha, aqui no Brasil o motor recebia coletor de escapamento, cárter, sistema único de polias e correia (poli-V). O sistema de injeção/ignição totalmente digital era da marca italiana Magneti-Marelli e tinha como característica a ausência do distribuidor. Em seu lugar foi adicionada uma roda dentada na polia do virabrequim e um captador eletrônico de sinais, que informava à unidade eletrônica o momento exato do disparo da centelha nas duas bobinas duplas de ignição.     

O cabeçote de 16 válvulas alemão tinha fluxo cruzado e a potência declarada do motor era de 153 cv (145,5 cv líquidos) a 6.250 rpm, com torque de 17,8 mkgf a 4.500 rpm. A taxa de compressão era alta, 10,5:1. Saltava os olhos também a potência específica de 71,4 cv/litro, ótimos números para um motor aspirado.   

Acoplado ao motor estava a caixa de câmbio oriunda do Audi A4. Dotada de cinco marchas, tinha acionamento de embreagem hidráulico, disco de 228 mm, ante os 215 mm empregado no motor AP de oito válvulas. Outra peculiaridade técnica deste powertrain era marcha à ré sincronizada com engrenagens de dentes helicoidais (não emitem o ruído característico da marcha reversa). 

Todo o sistema de suspensão e freios também era o mesmo empregado no Gol GTI 16V. O conjunto de molas e amortecedores passou a ser mais rígido, sendo que na traseira foi instalada uma barra estabilizadora que deixou o comportamento dinâmico mais preciso. As novas rodas de 15 polegadas eram calçadas por pneus de perfil baixo 195/50, segundo carro nacional a adotar tal medida de pneumáticos. Os freios eram a disco nas quatro rodas, ventilado na dianteira e sólido na traseira, e ofereciam o sistema ABS como opcional. 

VERSÃO 4 PORTAS 

No salão do automóvel de 1997 a Volkswagen apresentava a tão aguardada versão de quatro portas para a Parati. Diferente de outros tempos a Volkswagen resolveu estender essa opção de comodidade à versão GTI 16V. Outra boa novidade foi a opção do duplo airbag para a linha 1998. Essa “safra” foi produzida por um curto período de tempo já que a Volks trabalhava a futura Parati GIII, na verdade, uma Parati de segunda geração (mais conhecido como “bolinha”) com profundas mudanças estéticas, lançada em maio de 1999.  

A atualização visual acrescentou para-choques mais robustos, faróis com lentes de plástico, além de tampa do porta-malas e lanternas retocadas. Já o interior ganhou um banho de loja com a adição de um painel de instrumento todo renovado com inspiração nos irmãos europeus Golf e Passat. Os mostradores tinham um desenho bem elegante e moderno com iluminação azulada.  

Porém, com a mudança estética a Parati GTI 16V perdeu sua personalidade. Com a oferta do pacote Estilo oferecido até para o modelo de 1 litro, as particularidades do esportivo, tais como as rodas de 15 pol e pneus 195/50, foram estendidas a versões bem mais baratas. Outros detalhes foram eliminados, como as molduras laterais mais pronunciadas, a “bolha” no capô para o cabeçote mais alto e o revestimento em couro preto e vermelho. As únicas identificações externas da versão GTI 16V eram os discretos logotipos aplicados no porta-malas e nas laterais das portas traseiras. 

O interior passou a ser mais sóbrio com a opção do revestimento em couro preto nos bancos, volante e portas. Em nome da funcionalidade as maçanetas passaram a ser cromadas. O painel de instrumentos perdeu o fundo branco e o subwoofer na tampa do porta-malas foi retirado de linha. Agora havia somente a opção da carroceria quatro portas já que o mercado havia feito a opção pela praticidade das duas portas adicionais. 

A carreira comercial da Parati GTI 16V chegou ao fim em setembro de 2000. Produzida somente por quatro anos, a versão GTI 16V da Parati é um verdadeiro objeto de coleção. Felizmente alguns proprietários souberam preservar seus modelos para que pudéssemos contar a história dessa obra de engenharia da Volkswagen brasileira.  

Entretanto, a Volkswagen já tinha outra carta na manga: os veículos classificados como populares pagavam 10% de IPI, Imposto sobre Produtos Industrializados. Acima dessa cilindrada, o imposto saltava para 25%, seja qual fosse a potência do veículo. A ideia da Volkswagen foi unir o melhor de dois mundos: pegou seu moderno motor de 1 litro da Família EA 111 e acrescentou uma pequena turbina e alguns “recheios” eletrônicos. Pronto, estava criada a dupla esportiva na medida certa – o Gol e Parati 16V Turbo, modelos que uniam o desempenho da versão de 2 litros com a economia de combustível do Gol popular. Iremos contar a história deste icônico modelo assim que conseguirmos um carro original.  

A ÚNICA DA CIDADE 

Colecionador de automóveis antigos desde os 16 anos, quando adquiriu um Chevrolet Opala Grand Luxo 1971, o eletricista Eduardo Jorge Linn (43 anos), é hoje um feliz proprietário de uma rara Volkswagen Parati GTI 16V 1997 há três anos. Admirador confesso dos veículos da marca alemã, o eletricista conta que encontrou a Parati em um anúncio de internet e se acabou se interessando pelo modelo que estava em uma cidade próxima. “Na ocasião, eu tinha um Gol GT 1985, resolvi vendê-lo e com o dinheiro em mãos comprei a Parati GTI 16V”, explicou. 

A Parati GTI 16V é a única que se tem registro na cidade de Estrela, localizada na região na Vale do Taquari (RS), segundo o proprietário e por isso chama muita atenção por onde passa, ainda mais estando pintada na cor branco pérola. “Lembro-me que quando cheguei com a Parati na cidade, muitos vieram me perguntar se eu havia desmontado um Gol GTI 16V e com as peças tinha montado a Parati. Sempre explico que o veículo é original de fábrica e que modelo duas portas “bolinha” é o mais raro da linhagem GTI 16V”, diz sorridente. 

O eletricista diz não ter planos em vendê-la já que o veículo encontra-se em bom estado e original. “É um veículo que me agrada muito, principalmente no tocante ao desempenho, já o ponto fraco são as peças de reposições específicas do modelo. Já a família, bem, a minha esposa queria um carro mais moderno, mas teve que se acostumar com a ideia de passear em uma Parati esportiva”, comenta. 

 

 

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