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GOL GTI 16V, desempenho agressivo, digno da estirpe GTI para reforçar  a fama de hot hatch do Gol

Dotado de um motor multiválvulas importado da Alemanha, a Volkswagen resgatou a glória do Gol GTI que agora ultrapassava os 200 km/h

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Por Anderson Nunes


Avaliação da Matéria

Fotos: Leandro Bertotti  

 Voltaremos a 1988. Em outubro daquele ano um hatch esportivo, com pintura em azul e prata, toma as atenções no Salão do Automóvel de São Paulo. O motivo: sob o capô, um sistema de injeção eletrônica da marca Bosch substituía o antiquado carburador. É o início de uma nova era para a indústria automobilística nacional. 

Seis anos depois, o cenário mudaria completamente. O segmento de carros esportivos no país era outro, a Chevrolet lançava o Corsa GSi. Com um moderno motor de 1,6 litro e 16V importado da Hungria, o modelo da gravatinha andava mais, gastava menos e tinha as benesses de frear melhor, graças ao sistema ABS. Além disso havia agora também a concorrência acirrada dos modelos importados como o Suzuki Swift GTI e Fiat Tipo 16V.  

O Gol GTI, protagonista do cenário descrito acima, precisou mudar e muito para acompanhar a concorrência: para manter-se competitivo diante dos novos rivais o queridinho da VW ganhava uma nova geração em 1994 (batizada de AB9), contudo o fabricante alemão ainda guardaria uma carta da manga para o ano seguinte. Para devolver ao rei dos esportivos sua coroa a VW honraria a sigla com um trem de força de alto desempenho. A resposta para o mistério chegaria em setembro de 1995 quando foi apresentado o Gol GTI equipado com o motor de 16 válvulas. Era o quarto carro nacional equipado com tal tecnologia que havia iniciado com o Tempra 16V em 1993, e seguido depois por Vectra GSI e o próprio Corsa GSI.  

Mas o novo Volkswagen provou que a espera renderia bons frutos: seu desempenho a época impressionava. O hatch fazia de 0 a 100 em 8,8 segundos e a velocidade máxima era de 206 km/h. Não obstante, seu consumo se revelou outra grata surpresa: no trânsito urbano, o esportivo de 1.120 kg atingia a marca de 10,8 km/l, enquanto na estrada fez 14,3 km/l com um litro de gasolina. Um bom rendimento. E segredo de tudo isso? Tecnologia.  

CORAÇÃO METADE ALEMÃO 

Tudo começava pela grande novidade que estava debaixo do capô: o novo motor de 2 litros. Importado parcialmente montado da Alemanha, lá equipava modelos como o Golf GTI 16V e Passat GT. Para instalar o propulsor dentro do cofre do Gol, foram necessários várias modificações. A primeira foi a disposição longitudinal do motor Gol, pois na Alemanha todos os carros da matriz tinham trem de força transversal, isso implicou uma série de mudanças estruturais nos agregados. Os coxins passaram a ser hidráulicos para diminuir a vibrações. Também foram desenvolvidas peças específicas para essa posição de motor: coletor de escapamento, cárter, sistema único de polias e correia (poli-V).  

O sistema de injeção/ignição também era inédito entre os Volks brasileiros, pois era da marca italiana Magneti-Marelli (sempre usaram Bosch ou Ford). No lugar da Bosch Motronic foi utilizado um sistema todo digital. Essa decisão foi baseada na dificuldade técnica, já que o sistema Motronic utiliza o corpo do distribuidor e sua instalação no motor original alemão é atrás do cabeçote acionado por um dos eixos de comando, no Gol com motor longitudinal não haveria espaço para tal unidade. A solução foi usar o sistema italiano, sem distribuidor. Sua ausência era suprida com a roda dentada na polia do virabrequim e um captador eletrônico de sinas, que informava à unidade eletrônica o momento exato do disparo da centelha nas duas bobinas duplas de ignição.    

Outro diferencial era o bloco mais alto em relação ao similar brasileiro, que permitia maior comprimento das bielas — de 144 mm para 159 mm. Com 15 mm a mais, as bielas mais longas contribuíam para uma relação r/l (resultado da divisão de meio curso dos pistões pelo comprimento das bielas) mais baixa — de 0,32 para 0,29, que resultava em um motor de funcionamento mais suave em altas rotações e maior rendimento. Além disso, o cabeçote de 16 válvulas alemão tinha fluxo cruzado — e as duas modificações ajudavam a elevar a potência do motor a 153 cv (145,5 cv líquidos) a 6.250 rpm, com torque de 17,8 mkgf a 4.500 rpm. A taxa de compressão era alta, 10,5:1. Em um carro que pesava menos de 1.200 kg, o resultado era uma relação peso/potência digna de hot hatches europeus — 7,9 kg/cv. Já a potência especifica era de 71,4 cv/litro, ótimos números para um motor aspirado.  

Para suportar os novos valores de potência, a engenharia brasileira resolveu utilizar o mesmo câmbio do Audi A4, pois era a única opção no grupo VW a ter uma transmissão longitudinal. Dotado de cinco marchas, era acoplado a uma embreagem de acionamento hidráulico. O disco antes de 215 mm, passou a ter 228mm. Outra peculiaridade técnica no Gol GTI 16V era  marcha à ré sincronizada com engrenagens de dentes helicoidais (não emitem o ruído característico). 

Outro ponto que mereceu atenção foi o sistema de suspensão e freios. O conjunto de molas e amortecedores passou a ser mais rígido, sendo que na traseira foi instalada uma barra estabilizadora que deixou o comportamento dinâmico mais preciso. As novas rodas de 15 polegadas eram calçadas por pneus de perfil baixo 195/50, primeiro carro nacional a adotar tal medida de pneumáticos. Os freios eram a disco nas quatro rodas, ventilado na dianteira e sólido na traseira, e traziam ABS como opcional.  

A BOLHA  

O novo motor, mais alto e largo devido ao cabeçote com dois comandos, acabou ficando próximo a parte interna do capô. O problema foi transferido ao departamento de estilo, que estudou diversas formas, entre elas a de levantar um pouco à frente do modelo, mas o resultado estético não agradou. A saída encontrada estava em fazer um ressalto no capô onde a parte mais alta do motor encontrava-se. Inicialmente, os estudos previram que o ressalto poderia servir como uma entrada de ar adicional para o sistema de admissão, melhorando o desempenho. Finalmente, foi encontrada uma solução prática e simples: Os técnicos do departamento de estilo da Volkswagen desenharam uma curva para o capô atendendo às novas dimensões do motor.  

Ainda no exterior foi adicionado um pacote aerodinâmico que deixou a aparência mais agressiva e incluía minissaias laterais, aerofólio traseiro e um pequeno spoiler dianteiro. As novas rodas de liga leve de 15 pol traziam desenho diferenciado para poder receber pneus de perfil baixo série 50. Logotipos identificando o modelo pintado em dourado e a ponteira do escape cromada fechavam o conjunto de diferenças externas.  

Internamente, o GTI 16V poderia ter como opcional bancos, laterais das portas, manopla de câmbio e volante forrados em couro, um requinte disponível pela primeira vez um modelo do Gol. Nessa opção de acabamento, o cliente podia ainda escolher uma combinação entre a cor preta e outra vermelha, quando a cor da carroceria fosse o vermelho Dakar. Os demais opcionais ficam por conta do alarme com acionamento à distância, Toca CD com subwoofer na porta-malas e sistema de freios com ABS.  

 

 

 

QUATRO PORTAS E GIII 

Em outubro de 1997 era apresentada a tão aguardada versão de quatro portas para o Gol e a Parati. Diferente de outros tempos a Volkswagen resolveu estender essa opção de comodidade à versão GTI 16V. Outra novidade era a disponibilidade do air-bag duplo como opcional. Hoje em dia o Gol GTI 16V dotado de quatro portas é muito raro, já que foi fabricado em curto período de tempo e ser a transição para o futuro Gol GIII, na verdade, era um Gol de segunda geração (mais conhecido como “bolinha”) com profundas mudanças estéticas que foi lançado em maio de 1999. 

Além da renovação estética que por sinal fez bem ao Gol, com para-choques mais robustos, faróis com lentes de plástico, além de tampa do porta-malas e lanternas retocadas, o interior ganhou um banho de loja com a adição de um painel de instrumento todo renovado com inspiração nos irmãos europeus Golf e Passat. Os mostradores tinham um desenho bem elegante e moderno com iluminação azulada. 

Outra mudança promovida pela Volkswagen nessa geração do Gol foi a criação de pacotes de acabamento. Se antes eram nomeados como CL, GL e GLS, agora passariam a ser chamados de Básico, Luxo, Conforto e Estilo. Nesse sistema o cliente poderia escolher ter um modelo 1.0 com acabamento topo de linha, ou uma versão espartana com o motor de 2 litros. A única versão que permaneceu foi a GTI, mas sem nenhuma distinção visual. 

Porém com a mudança estética o Gol GTI 16V perdeu sua personalidade. Com a oferta do pacote Estilo até para modelo de 1 litro, as particularidades do esportivo, tais como as rodas de 15 pol e pneus 195/50, foram estendidas a versões bem mais baratas. Outros detalhes foram eliminados, como as molduras laterais mais pronunciadas, a "bolha" no capô para o cabeçote mais alto e o revestimento em couro preto e vermelho. As únicas identificações externas do atual GTI são discretos logotipos no porta-malas e nas portas traseiras. Outra característica curiosa referente ao esportivo era o fato de ser somente oferecido com quatro portas, embora as demais versões ainda disponham da carroceria de duas portas. 

No interior passou a ser mais sóbrio com a opção do revestimento em couro preto nos bancos, volante e portas. Em nome da funcionalidade as maçanetas passaram a serem cromadas. O painel de instrumentos perdeu o fundo branco e o subwoofer na tampa do porta-malas foi retirado de linha. Tudo isso tinha um nome: economia de escala. Já naquele tempo o mercado passava por uma concorrência acirrada, no caso da Volkswagen a briga se dava dentro de casa com a chegada do Golf GTI e do primo Audi A3. Logo não compensa a VW produzir ou equipar com componentes específicos para vender algumas dezenas de GTI por mês. Ao padronizar rodas, painel, volante e acessórios nas versões Estilo e no Saveiro TSi, a fábrica conseguia obter um custo unitário menor e viabilizava a continuidade de um dos poucos esportivos nacionais.  

A carreira comercial do Gol GTI 16V chegou ao fim em setembro de 2000, mais raro do que ele somente a Parati GTI 16V que estamos à procura para fazer uma reportagem. Durante pouco mais de 1 ano de produção estima-se que foram vendidos cerca de 1.200 unidades do modelo GTI GIII, o que torna essa versão rara um objeto de coleção.  

ESPORTIVO DE COLEÇÃO 

Se um Gol GTI oito válvulas já atrai a atenção e o olhar de muitos curiosos, imagine então a rara versão de 16 válvulas ainda na exclusiva tonalidade vermelho Dakar, o que é capaz de torcer pescoços pelas ruas. O modelo que ilustra a nossa reportagem pertence ao empresário Leandro Bertotti, da cidade de Chapecó-SC. Colecionador de Gol, Leandro cedeu recentemente para nós Do Fundo do Baú, o seu Gol L 1980 que foi tema da edição outubro. 

Agora foi a vez do seu Gol GTI 16V 1995 ser o “gol” da vez. O modelo está completamente original e isso fica nítido pelos selos de inspeção e manual do proprietário ainda preservado.  Esteticamente chama a atenção o jogo de rodas de rodas aro 15 que são calçados com os pneus de perfil baixo 195\50. O icônico ressalto no capô denuncia o potente motor de 2 litros de 145,5 cv.  

Internamente o modelo traz os bancos esportivos Recaro revestidos em tecido. A lista de opcionais era restrita ao alarme com acionamento à distância, sistema de som toca-CD e desejado revestimento de couro bicolor batizado pela Volks de Concept Color. Esse acabamento em couro nas tonalidades vermelha e preta só estava disponível na pintura Vermelho Dakar e era aplicada no volante, pomo da alavanca de câmbio, bancos e laterais das portas.   

 

 

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