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GOL GT E GTS, dupla de esportivos que alegrou uma geração de entusiastas por velocidade no Brasil

Dotado de motores potentes, alto desempenho e acabamento refinado, o Gol em suas versões “nervosas” consolidou a Volkswagen como uma marca de vocação esportiva

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Por Anderson Nunes


Avaliação da Matéria

Ao estrear nas concessionárias em maio de 1980, o Gol na ocasião podia ser considerado o Volkswagen mais moderno do mercado brasileiro. As linhas retas e excelente área envidraçada o colocavam em sintonia com o padrão de desenho da época. Seu visual era claramente inspirado em outro produto da matriz alemã, o Scirocco de 1974, um charmoso cupê esportivo criado pelo renomado designer Giorgetto Giugiaro, cuja carroceria era fabricada nas dependências da Karmann Ghia, na cidade de Osnabrück, sobre a plataforma do Golf.  

O lançamento de uma versão esportiva já estava nos planos da fábrica antes mesmo da chegada da linha Gol ao mercado. Ainda na fase dos protótipos, o departamento de estilo chegou a montar um exemplar com essa proposta. Com a inscrição GTE na traseira e GT nas laterais, o modelo exibia aerofólio, escapamento de saída dupla, para-choques mais volumosos com defletor na dianteira, faróis auxiliares, retrovisor externo junto ao quebra-vento, rodas esportivas e apoio de cabeça também no banco traseiro, além de pronunciadas polainas que se interligavam por meio de molduras nos para-lamas e uma faixa preta decorativa que percorria toda a linha baixa na lateral da carroceria.  

Contudo, o Gol foi colocado à venda no auge da segunda crise do petróleo, dessa maneira a Volks preferiu jogar as cartas com um modelo econômico equipado com conhecido motor boxer refrigerado a ar herdado do Fusca e deixar “congelada” inicialmente a versão esportiva. Entretanto no final de 1983, em uma ousada estratégia de marketing a Ford colocava à venda a versão esportiva do Escort batizada de XR3. O modelo causou um alvoroço geral nos entusiastas por velocidade. Equipado com motor CHT de 1,6 litro batizado de “Fórmula”, era movido exclusivamente a álcool, trazia um novo carburador de corpo duplo, comando de válvulas com maior tempo de abertura e saída de escape menos restritivas, tudo isso para extrair 83 cv a 5.600 rpm e torque máximo de 12,2 m.kgf a 4.000 rpm.  

O arrojo da Ford em lançar um modelo mundial e trazer logo na sequência sua versão esportiva praticamente idêntica à oferecida no exterior fez com que os dirigentes da Volkswagen revissem toda sua estratégia para a estreia da versão esportiva do Gol. A fabricante alemã responderia à altura com a chegada do Gol GT, modelo inspirado no primo teutônico Golf GTI. 

ESPORTISTA NATO 

Em março de 1984, no autódromo de Interlagos, a Volkswagen apresentava oficialmente à imprensa o Gol GT. A versão esportiva tinha como novidade o motor de 1,8 litro que entre seus predicados trazia alguns “venenos” de fábrica. A começar pelo carburador de corpo duplo Solex-Brosol 2E, de dois estágios com difusores de 36 mm. Tanto os coletores de admissão como de escape foram redesenhados para facilitar a entrada de ar bem como a saída dos gases de escape. A taxa de compressão era de 12:1 para o álcool e de 8,5:1 na gasolina. Pistões, bielas e virabrequim eram confeccionados em material mais leve e consequentemente geravam menos atrito interno. Entretanto a grande estrela deste conjunto atendia pelo código “049G”. Tal sigla correspondia ao comando de válvulas mais bravo, o mesmo aplicado no Golf GTI alemão. Ele tinha como característica um diagrama que mantinha as válvulas de admissão abertas por mais tempo, consequentemente admitia maior quantidade da mistura ar/combustível, que incrementava um melhor rendimento ao motor.  

Essas soluções técnicas conferiam ao Gol GT potência máxima de 99 cv a 5.400 rpm e torque de 14,9 m.kgf a 3.200 rpm. Acoplado ao trem de força num primeiro momento estava o câmbio manual de quatro marchas que permitia ao modelo alcançar velocidade máxima de 170 km/h e fazer de 0 a 100 km/h em 11,7 segundos. Tais dados de desempenho o colocavam entre os carros mais rápidos em produção no Brasil, disputando palmo a palmo com os Opalas seis cilindros e superando com folga o seu rival de segmento, o Ford Escort XR3.  

Para lidar com desempenho mais agressivo, a suspensão do GT tinha calibragem diferenciada, com molas e amortecedores mais firmes para inclinar menos e garantir maior aderência nas curvas. Também foi adicionada uma nova barra estabilizadora de 18,5 mm na dianteira. O sistema de freios também foi revisto com a inclusão de um servofreio de 8 polegadas; disco dianteiros e pinças de maior diâmetro eram iguais ao que seriam utilizados no Santana. Para fechar o pacote dinâmico rodas de liga leve com sete raios duplos, aro 14 polegadas revestidos com pneus 185\60HR14. E para valorizar a vitalidade do novo motor saída dupla de escape – que ficava apenas dois decibéis abaixo do permitido por lei.  

Visualmente o Gol GT 1.8 adotava a dianteira do sedã Voyage com lanternas de piscas ao lado dos faróis, grade na cor da carroceria e um discreto defletor de ar e faróis de milha, que conferiam um caráter mais “bravo”. Nas laterais, uma proteção de borracha cinza grafite ligava as caixas de rodas aos para-choques. No vidro traseiro foi aplicado adesivo “GT” (inspirado no VW Scirocco de segunda geração). A pintura em cinza também estava presente ao redor da vigia traseira no espaço onde era fixada a placa de licença.  

Internamente havia bonitos bancos esportivos Recaro com laterais envolventes e ajuste do apoio de coxas. O volante era o mesmo do Passat TS de quatro raios com diâmetro de apenas 350 mm. O painel de instrumentos com grafia vermelha trazia minúsculo conta-giros à esquerda e o curioso vacuômetro, mostrador criado para “ensinar” o motorista a dirigir de uma forma mais econômica, algo incoerente em um esportivo. O console central concentrava o relógio digital e um pequeno porta-objetos. Entre os poucos opcionais o mais desejado era o ar-condicionado. Com adoção do motor 1,8 litro arrefecido a água, o estepe foi deslocado para o porta-malas, reduzindo sua capacidade de 334 para 273 litros.    

MOTOR ATUALIZADO 

Embora o desempenho do motor 1,8 litro agradasse os proprietários do Gol GT, no tocante ao projeto este trem de força já estava defasado em relação ao da matriz alemã. No caso do 1,8, o uso de bielas mais curtas que no similar europeu resultava em relação r/L desfavorável, o que gerava vibrações e aspereza de funcionamento. Em agosto de 1985, o motor era padronizado ao alemão na chamada Família AP (Alta Performance). O motor AP tinha como característica principal trazer bielas mais longas, o que lhe rendeu o apelido de “bielão”. Este conjunto propulsor é até hoje muito apreciado por preparadores pelo ótimo potencial de rendimento e durabilidade, pois chega ao 7.000 rpm sem muito esforço.  

No 1,8 litro o aumento das bielas de 136 para 144 mm melhorou a r/L de 0,317 para 0,300, o que o deixou mais suave. Outra mudança foi o aumento do diâmetro das válvulas de escape de 31 para 33 mm. A partir de agora o motor do Gol GT recebia a denominação AP800S, sendo oferecido somente na versão a álcool com potência de 99 cv – embora na prática deviam ser 105 cv, porém se a Volkswagen reconhecesse tal potência o carro entraria em uma faixa maior de alíquota do IPI, que na época considerava a potência e não a cilindrada. O tão aguardado câmbio de cinco marchas agora era padrão no GT.  

Na linha 1985 a versão GT agora somava faróis de neblina aos de longo alcance, banco do motorista ganhava regulagem de altura e clássico volante de “quatro bolas”, que eram os botões de buzina, com diâmetro de 380 mm. A concorrência nesse período aumentou com a chegada do Chevrolet Monza S/R dotado inicialmente com o motor de 1,8 litro. Além do visual moderno proporcionado pela carroceria hatch, o modelo da gravatinha ainda oferecia maior conforto e um porta-malas mais amplo. Era chegada a hora da Volkswagen promover a primeira mudança visual do Gol. 

GT TORNA-SE GTS 

Com o advento do Plano Cruzado, lançado pelo governo brasileiro em 28 de fevereiro de 1986, a principal marca dessa medida econômica foi o congelamento de preços. Devido ao controle dos preços dos produtos e serviços, as mercadorias começaram a se tornar escassas e a sumir. Mercados paralelos floresceram e só pagando “ágio” era possível comprar algum produto ou bem de consumo, entre eles o automóvel. Na época o mercado andava superaquecido e o governo federal vinha controlando os preços, por meio da CIP (Conselho Interministerial de Preços), e os aumentos dados pelos fabricantes. A situação artificial de tentar acabar com a inflação por decreto fizera os carros 0 km desaparecem das concessionárias e surgirem, com ágio, nas lojas independentes. No caso do Gol, a opção da VW para poder aumentar os preços foi alterar a denominação e o pacote de equipamentos das versões.  

No caso do Gol GT, a versão esportiva foi rebatizada de GTS. O modelo trazia frente mais baixa, para-choques de plástico envolventes com faróis de milha embutidos. Nas laterais, largos painéis de plástico preto com um pequeno friso vermelho. Na tampa do porta-malas, destacava-se o aerofólio e as amplas lanternas tricolores. O pacote estético externo era completado pelas novas rodas de liga leve apelidadas de “pingo d’água” aro 14 cobertas com pneus P6000.   

O interior mantinha painel e tapeçaria da versão GT do ano anterior, por isso o GTS 1987 é comumente chamado de “híbrido”, pois combina o visual renovado com o interior da primeira geração do esportivo. A reformulação interna só veio na linha 1988. No Gol GTS, o painel trazia instrumentos circulares, ao centro seis-luzes espia e logo abaixo um relógio digital. Próximo ao volante, teclas do tipo ‘satélite” e console central integrado com porta-fitas, para serem tocados no famoso rádio Los Angeles IV. O interior trazia também novo padrão de acabamento para os bancos Recaro e como opcionais ar-condicionado, trava, vidros e espelhos com acionamento elétricos.   

Em 1991, a linha Gol foi reestilizada e a dianteira ganhou novo capô, grade, faróis e lentes dos piscas, agora translúcidas. Tanto o a versão GTS como a GTi receberam novas rodas apelidadas de Orbital, inspiradas no conceito Orbit, desenvolvido pela VW alemã em 1988. Para 1993, o motor 1,8 litro do GTS ganhava carburador com controle eletrônico de marcha-lenta. O modelo passava também a ter como opcional a tão aguardada direção com assistência hidráulica. Esteticamente estavam disponíveis também as rodas raiadas do tipo BBS e as lanternas traseiras ganharam lentes fumês. O interior ganhava somente um novo padrão de acabamento para os bancos Recaro.  

A versão GTS permaneceu em linha até meados de 1994. Com o lançamento da segunda geração do Gol (AB9), popularmente conhecida com “bolinha” em 1994, o GTS foi retirado de linha, cabendo ao GTI o status máximo da linha Gol. Durante o Salão do Automóvel de 2018, a Volkswagen reviveu a sigla GTS, que passará a compor uma versão esportiva tanto do hatch Polo quanto do sedã Virtus. Os modelos serão dotados do motor 1,4 litro turbo TSI de 150 cv e 25,5 m.kgf de torque acoplado ao câmbio automático de seis velocidades. 

ESPORTISTAS CONSERVADOS 

A região Sul do Brasil tem se mostrado ao longo dos anos um verdadeiro celeiro no que diz respeito a carros raros e bem conservados. É uma cultura automotiva que chama a atenção nos cuidados aos pequenos detalhes e na raridade de certos modelos. É o caso da dupla de esportivos que ilustram nossa matéria – Gol GT e GTS. Ambos parecem ter deixado a concessionária recentemente, tamanho é o cuidado que tiveram ao longo das últimas três décadas.  

O primeiro modelo trata-se de um Gol GT 1986, Vermelho Royal, que pertence ao empresário Fabiano Casarim, da cidade de Chapecó, Santa Catarina. Casarim nos contou que o Gol GT surgiu meio que ao acaso em sua vida quando procurava algum modelo da VW da década de 1980 para comprar. “Falei para um amigo sobre o meu interesse em adquirir um Gol ou Voyage da década de 1980. Ele comentou que havia visto um Gol GT vermelho anunciado no dia anterior em uma cidade próxima de Chapecó, e como o veículo tinha ar- condicionado, um opcional muito difícil de encontrar nesses carros, entrei em contato com o proprietário e dois dias depois fui buscar o carro”, explicou.  

O empresário pagou R$ 16 mil no esportivo que estava bem íntegro e original, mas a obsessão em deixá-lo em estado de 0 km fez com o veículo fosse completamente desmontado para a realização de um trabalho de alto nível. “Decidi restaurá-lo e para tanto o Gol foi desmontado e minuciosamente restaurado para chegar ao padrão de como se fosse Zero Km. Procurei utilizar muitas peças originais Volkswagen, tanto na mecânica mas, principalmente peças de acabamento, difíceis de encontrar e com um preço normalmente superior às paralelas, mas o resultado final ficou incrível”, diz sorridente o empresário.    

Além do Gol GT, Fabiano Casarim possui outros dois raros modelos da linha Ford: Corcel Luxo 1969 que está na família desde novo e um Corcel GT 1969. 

 Já o Gol GTS 1987 preto Onix é de propriedade do vendedor de carros Leandro Bertotti, também morador da cidade de Chapecó, Santa Catarina. Bertotti é especialista na linha Gol, somente em sua garagem ele tem uma série de modelos BX (primeira geração) e alguns muito raros: Gol L 1980, Gol Copa 1982, Gol Plus 1986, Gol Star 1989 e Gol GTS 1994. Sem falar em um Gol GTI 16V, o grande destaque da segunda geração. Tanto o Gol L quanto o GTI 16V já ilustraram as páginas da seção do Fundo do Baú. 

Segundo o proprietário, o Gol GTS 1987 acumula em seu hodômetro apenas 47 mil km rodados em 32 anos de vida. O carro foi minuciosamente restaurado nos mínimos detalhes. “O modelo foi o primeiro do tipo a receber a placa preta. E só não é original porque a pintura preto Onix foi refeita”, salienta Bertotti. 

O modelo conserva muitos itens originais de fábrica como faróis e lanternas. Os retrovisores são fixados nas portas, outro item que o diferencia dos modelos de fabricação 1988. Internamente chamam a atenção os bancos Recaro com seu revestido original preservado e sem marcas de uso assim como o volante de quatro raios, conhecido como “quatro bolas”. O esportivo também mantém o rádio toca-fitas Bosch Los Angeles IV  original.  

Entre os itens não originais de fábrica estão os vidros elétricos instalados na concessionária, já que tal equipamento não era disponível nem mesmo como opcional na linha 1987.  

Também está de fora o ar-condicionado. São essas pequenas faltas ou diferenças estéticas e de acabamento que tornam o GTS 1987 um dos modelos raros e cobiçados da linha Gol de primeira geração.   

 

 

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