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Cross Lander CL 244, de Manaus, um romeno valente e que fez as honras de um autêntico fora-de-estrada

Com projeto oriundo da Romênia, o Cross Lander CL 244 trouxe de volta por um curto espaço de tempo o espírito rústico e parrudo dos autênticos jipes

Por Anderson Nunes

Localizada na parte Oriental da Europa, a Romênia é um país que faz limite com a Ucrânia, mar Negro, República da Moldávia, Bulgária, Hungria e Sérvia. Sua capital é Bucareste. Desde o ano de 2007 faz parte da União Europeia, em 2004, tornou-se um dos membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). 

Culturalmente, um traço marcante da população romena é a frequente visitação a feiras, em sua maioria de artesanato. No país são encontrados inúmeros castelos com boa conservação. Estas são algumas das principais atrações turísticas durante o ano, sendo o Castelo de Bran o mais visitado. Neste castelo, de acordo com historiadores, foi onde viveu o Conde Drácula, que é o pai das lendas vampirescas. 

Após a Segunda Guerra Mundial, a Romênia permaneceu sob a ocupação militar direta além do controle econômico nas mãos dos soviéticos. Foi durante esse período que a indústria automobilística romena floresceu, tornando-se uma das maiores produtoras e exportadoras de automóveis da Europa Central e Oriental, ajudada pelo Pacto de Varsóvia. Marcas como Craiova, Oltcit e a mais conhecida, a Dacia, surgiram nesse momento. No entanto a indústria de carros declinou com crise econômica que se seguiu com Revolução Romena e o colapso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas no final dos anos de 1980. 

Após esse período o governo romeno colocou em prática uma reforma econômica privatizando indústrias estatais e abrindo o mercado ao capital estrangeiro. Na esteira destas reformas algumas marcas de automóveis trocaram de mãos, a Craiova Automobile foi encampada pela Ford e Dacia passou a fazer parte do grupo Renault-Nissan.  

Entretanto, outras marcas romenas acabaram por falir devido a privatizações malfadadas ou por falta de interesse de outros conglomerados estrangeiros em adquirir estas empresas. Foi o que aconteceu com a estatal ARO, abreviação de Auto Romênia, um fabricante de veículos fora-de-estrada localizado em Câmpulung. Aqui no Brasil os utilitários ARO ficaram conhecidos como Cross Lander, sendo produzidos entre 2003 a 2006.  

ESPECIALIZADA EM 4X4 

A história da marca ARO remonta a uma antiga fábrica de papel, erguida no século XIX localizada na cidade de Letea de Câmpulung-Muscel. O complexo estava inativo desde 1933, mas foi com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, sob as ordens do Marechal Ion Antonescu, que as instalações foram inicialmente destinadas a produzir parafusos pneumáticos e hélices de avião, sendo uma extensão do fabricante de aviões romenos IAR Brasov – Indústria Aeronáutica Romena. Nos anos de 1950, o local passou a ser uma oficina de manutenção para os veículos do exército romeno. 

O primeiro carro produzido pela marca foi o modelo IMS 57, lançado em 1957. O fora- de-estrada romeno fora baseado em um projeto russo, o GAZ 69. Era um veículo compacto tinha 3,86 metros de comprimento, 2,33 m de entre-eixos, 1,72 m de largura e 2,01 m de altura. Seu trem de força era um quatro cilindros, movido a gasolina de 3.260 cm³ e rendia parcos 50 cv a 2.800 rpm. Acoplado ao motor uma transmissão manual de quatro marchas que  permitia ao modelo atingir velocidade máxima de 80 km\h.  

Estava disponível em versões conversível dotado de capota de lona e picape, ambas de duas portas. A produção era artesanal, depois de montados e testados os veículos eram levados para serem pintados na unidade industrial da Dacia. É versão mais rara, já que foram produzidos pouco mais de 800 unidades. 

Em 1959, o IMS-57 foi substituído pelo M59, que obteve pequenas melhorias em relação ao seu predecessor. Entre os aprimoramentos o motor passou a ter 56 cv e a velocidade máxima subiu para 90 km/h. Agora o limpador de para-brisa tinha acionamento elétrico. Uma versão de quatro portas foi acrescentada ao catálogo, já as carrocerias passaram a ser pintados e acabadas na própria unidade da Aro, na cidade de Câmpulung. Durante os quatro anos de produção, o número de veículos construídos foi de 3.222 unidades. 

Um novo modelo, o M461, foi apresentado em 1964. Entre os aperfeiçoamentos estavam melhorias no acabamento e uma mecânica redesenhada. Seu motor quatro cilindros em linha passou a deslocar 2.512 cm³ e a potência máxima saltou para 70 cv, que permitia ao utilitário atingir uma velocidade máxima de 100 km/h. O M461 foi a última e mais numerosa série de veículos ARO baseados no GAZ 69. Quando sua produção foi encerrada em 1975, haviam sidos fabricados um total de 80 mil carros. 

 O programa de exportação do M461 começou em 1965, para a China e a Colômbia. Na Alemanha Oriental o modelo foi batizado de M473.  No total foram exportados mais de 46 mil veículos. O utilitário romeno também se deu bem em competições internacionais, tendo vencido, por exemplo, a Forests Rally (Bélgica) 1970 e a Sons of Beaches (Oregon) em 1973. Segundo estáticas há cerca de 3 mil unidades do M461 ainda rodando pelas estradas da Romênia. 

SÉRIE 24X, ICÔNICO ARO 

Pouco mais de uma década após lançar seu primeiro veículo 4x4 e ganhar reputação ao redor do planeta, a ARO lançou seu modelo mais icônico – a Série 24X, apresentada no final de 1969. A marca romena se empenhou sobre a prancheta durante seis anos para criar seu novo fora de estrada.  

A princípio a produção era bastante reduzida e foi focada para abastecer as forças armadas. A fabricação seriada teve início em 1972, com o modelo 240 soft top (conversível) de duas portas e logo se estendeu em numerosos estilos de carroceria, incluindo o 241 quatro portas soft top, picape 242, perua 243 de duas portas de teto elevado, perua 244 de quatro portas e perua 246 de quatro portas com teto elevado. A linha de comerciais leves começava na picape 320 de cabine simples, picape 324 de cabine dupla e picape 330 de cabine simples de entre-eixos longo. Outras variações também foram oferecidas como ambulância, junto com um modelo militar chamado Dragon. Todos podiam receber tração 4x2 e 4x4. 

O desenho quadrado e a grande altura em relação ao solo fazia o utilitário romeno parecer vistoso, entretanto na verdade todos os modelos da Série 24x eram compactos e funcionais, com uma distância entre-eixos de apenas 2,35 metros de comprimento. Os modelos 32x e 33x, dotados de chassis alongados, eram oferecidos com distâncias entre-eixos de 3,30 e 3,34 m, respectivamente. 

As especificações mecânicas da série ARO 24 foram igualmente simples e funcionais. Os motores a princípio eram gasolina e diesel desenvolvidos pela própria da ARO, deslocando de 2,5 a 3,0 litros. Para os mercados externos havia uma ampla variedade de motores a gasolina tais como da Toyota, Ford e Chrysler e motores a diesel da marca polonesa Andoria, Toyota, Peugeot e VM. Mesmo os trens de força ARO e depois motores diesel terceirizados tinham menos de 100 cavalos. A exceção foi o modelo de luxo Hunter, que tinha um motor único, um Ford Colónia V6 de 4,0 litros, preparado pela Cosworth, que entregava 207 cv e 32,9 m.kgf de torque. 

Os alicerces da Série 24 provaram ser bastante competitivos no fora de estrada, e o projeto mostrou-se capaz de competir em mercados externos e foi um sucesso de exportação da Romênia, além de ser produzido sob licença em Portugal e na Espanha. O Portaro, acrônimo de PORT para Portugal + ARO, foi produzido de 1975 a 1995, e o espanhol Hisparo de 1984 a 1992. O Portaro competiu com sucesso no rali internacional, com um primeiro lugar no Pharaon Rally de 1984 no Egito. 

Mudanças externas na Série 24 ao longo dos anos foram mínimas. Ele estreou em 1972 com grandes faróis retangulares tirados do Dacia 1300 (cópia romena do Renault 12) e uma grande grade frontal com barras verticais. Em 1977, foi adicionado um par de faróis redondos. Outra mudança cosmética ocorreu em 1985 com a adoção de uma nova grade e faróis redondos menores, simples ou duplos dependendo do modelo. 

Internamente os últimos modelos dotados de quatro faróis traziam um painel moldado em plástico cujas formas e os instrumentos eram inspirados em utilitários esportivos japoneses dos anos 1980 ou 1990. Já os modelos da década de 1970 tinham um painel de metal pintado na cor da carroceria com instrumentos simples. 

ROMENO NATURALIZADO BRASILEIRO 

Com o fim de produção do Toyota Bandeirante no início dos anos 2000, diversos fabricantes de veículos 4x4 tentaram dividir uma fatia do bolo deixado pela marca nipônica. Entre essas empresas estava a Cross Lander. Apresentado ao público durante o Salão do Automóvel de 2002, os primeiros veículos começaram a ser entregues em janeiro do ano seguinte. O empreendimento brasileiro foi bancado por uma sociedade entre o Grupo Samambaia e um distribuidor americano (Cross Lander USA). Os veículos eram fabricados na Zona Franca de Manaus, na mesma planta que antes montava os veículos da Kia. 

O único ponto do projeto que lembrava o antigo ARO era a sua aparência: cerca de 80% do veículo utilizava equipamentos nacionais tais como motor, câmbio, sistema de direção, freios e acabamento interno. Somente a carroceria e as suspensões eram oriundos da Romênia. Os veículos passaram por uma bateria de testes por ruas e estradas brasileiras, sendo que uma parte das provas ocorreu em estradas da Amazônia e no semiárido nordestino. Todo esse balão de ensaio consumiu um aporte inicial de 8 milhões de dólares. O investimento total seria de 32 milhões de dólares. 

 ONDA RETRÔ 

Na virada do novo milênio uma onda retrô, culto ao estilo antigo que preencheu vários segmentos de mercado, estendeu-se ao nicho dos 4x4, dando um novo sopro de vida ao utilitário oriundo da Romênia. A aparência típica dos anos 60, com para-brisa plano, grande área envidraçada, faróis circulares ladeados por uma grade plástica e robustos para-choques acabaram por conquistar potenciais compradores pelo charme de um autêntico fora-de-estrada.  

O chassi de longarina e travessa do tipo escada vestia uma carroceria em chapa de aço de vincos bem pronunciados. O CL-244 contava com estepe posicionado do lado de fora da porta traseira, gancho de tipo bola e tomada elétrica para reboque, limpador e lavador de vidro traseiro, luz auxiliar de freio traseiro (brake light), protetor do cárter do motor reforçado e faróis auxiliares. Havia a opção de instalar acessórios como guincho, tomada de ar elevada (snorkel), quebra-mato, bagageiro de teto com conjunto de iluminação aérea, e estribos laterais. Por fim a paleta de cores era restrita ao branco, verde, prata, amarelo e vermelho. 

Grande ponto a se destacar no Cross Lander era referente à mecânica. O SUV era equipado com o motor turbo diesel intercooler International HS 2,8 litros de 132 cv e torque de 36,2 Kgfm a 1.600 rpm. De concepção moderna para época caracterizava-se pelos baixos níveis de vibração, ruído e emissão de poluentes. Acoplado ao motor estava o câmbio Eaton com carcaça de alumínio de cinco velocidades, com caixa de redução e tração 4X4 de acionamento manual diretamente nas rodas dianteiras. 

A suspensão dianteira era independente, com molas helicoidais e braços paralelos. Na traseira eixo rígido, mola semielíptica de duplo estágio. Os freios eram a disco na dianteira e a tambor na traseira. As rodas aro 15 pol eram cobertas com pneus Goodyear Wrangler AT/S.  

A cabine do CL244 era simples e funcional, com amplo espaço interno para cinco pessoas. O painel de instrumentos de fácil leitura resumia-se ao velocímetro, conta-giros e marcadores de nível de combustível e temperatura da água. Os bancos dianteiros eram revestidos de couro sintético com ajuste de distância e inclinação, a forração do piso é de borracha para facilitar a limpeza, além de porta-revistas atrás dos bancos dianteiros e console central com tampa e porta-copos, cobertura do porta-malas retrátil e removível, bancos traseiros rebatíveis, ventilação forçada, ar quente e desembaçador do vidro traseiro. Como itens opcionais de fábrica havia: ar-condicionado com saídas frontais e traseiras, rádio AM/FM e toca-CD. 

Apesar do preço atraente para a época (o valor inicial era de R$ 55 mil), a não confirmação das exportações para os EUA, para onde foram enviadas algumas unidades para a homologação que não ocorreu, inviabilizaram os planos ambiciosos da empresa. Assim, em lugar dos 800 veículos previstos, foram fabricados apenas 72 no primeiro ano. Depois de cerca de 200 unidades produzidas, a linha de montagem foi paralisada. Houve uma segunda tentativa para reativar a produção em 2005, mas os veículos da Cross Lander não atendiam mais à legislação ambiental brasileira. No ano seguinte a produção foi encerrada definitivamente. 

CAÇA À UM 4X4 

O empresário jacariense Constantino Alexandre de Trindade Neto sempre foi um admirador de jipes e utilitários esportivos. Em 2013 estava à procura de um modelo para fora de estrada robusto e pudesse acomodar a família. A priori a intenção era adquirir um Land Rover Defender porém, os valores estavam acima do seu teto estipulado e muitos dos veículos encontrados não estavam em boas condições.  

Durante alguns meses o empresário pesquisou e acabou por encontrar na cidade Cotia-SP, um utilitário de nome diferente, mas que atendia perfeitamente seus anseios. “Assim que fui conhecer o Cross Lander, ano 2003, chamou a minha atenção o estado geral do veículo, muito íntegro e original, outro detalhe era a baixa quilometragem de apenas 33 mil km. Não pensei duas vezes e comprei o veículo por R$ 25 mil, a valor que correspondia a metade de um Defender”, explica. 

O carro estava ainda com pneus e estepe originais, manual do proprietário e parte mecânica totalmente em ordem. Outro fator que agradou Constantino é que a toda parte mecânica é a mesma da picape Ford Ranger. “O motor é destaque, muito potente e econômico. Já precisei trocar o atuador da embreagem e como o conjunto é da Ranger ficou fácil e barato de reparar”, disse o empresário. 

 

 

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