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Chevrolet Nomad, o modelo nascido de um conceito do Corvette e que foi precursor das atuais peruas esportivas

Uma perua de apenas duas portas, um potente motor V8 e uma baixa produção faz da Chevrolet Nomad hoje um objeto de alto valor de coleção

Por Anderson Nunes

 

O General Motors Motorama, realizado no luxuoso hotel Waldorf Astoria, em Nova Iorque, naquele longínquo 17 de janeiro de 1953, é considerado por muitos o local onde o carro esportivo norte-americano nasceu. Lá foi palco para que GM apresentasse um veículo conceito batizado de “Projeto Opel”, cujo destaque era a carroceria de plástico reforçado de fibra de vidro. O carro em questão chamou a atenção do público presente e seis meses depois era lançado como Chevrolet Corvette.

 

De um protótipo de fibra de vidro, passando por um elegante conversível de dois lugares dotado de um motor de seis cilindros em linha até os dias atuais, em que o modelo emprega um grande V8 de 6,2 litros sobrealimentado de mais de 750 cv, o Corvette é acima de tudo um símbolo da cultura automotiva norte-americana, graças em parte ao seu valor competitivo quando se leva em conta a potência e desempenho oferecido diante de rivais europeus como Porsche e Aston Martin.

O “tema Corvette” mostrou-se bastante rentável e criativo ao departamento de estilo da General Motors. No ano seguinte no mesmo Motorama Motor Show, a Chevrolet havia planejado levar dois conceitos do Corvette – um cupê e um fastback apelidado de “Corvair”. Poucos dias antes do evento, Harley Earl, chefe do departamento de estilo da GM e o idealizador do primeiro carro conceito da história automotiva, depara-se com um sketch de uma perua baseada no Corvette criado pelos desenhistas Clare MacKichan e Carl Renner.

Ao ver aquele desenho Earl pediu imediatamente a confecção de um modelo em escala natural para que fosse exibido junto aos outros dois conceitos do Corvette. O resultado foi o Corvette Nomad, um protótipo dotado de carroçaria de fibra de vidro “vestido” em um chassi de perua Chevrolet 1953. O desenho do teto proposto por Renner era bem adaptado às linhas do recém-lançado carro esporte da Chevrolet e o nome era perfeito.

Assim como aconteceu com o Corvette um ano antes, a recepção à perua Nomad foi muito boa. Harley Earl ficou tão empolgado com a ideia que pediu para que o projeto prosseguisse, entretanto com mudanças mercadológicas: sairia de cena a proposta de uma perua Corvette e faria parte do portfólio da linha carros Chevrolet 1955 uma station wagon com visual esportivo, gênese das atuais “Sportwagon”.

CARRO PRONTO EM DOIS DIAS

Para o ano de 1955 os carros da Chevrolet ganharam um estilo totalmente novo. O modelo era anunciado como “The Hot One”, e era caracterizado por uma carroceria moderna, com linhas retas, para-brisas envolventes e adornos cromados, símbolo de sofisticação na época. No interior o painel de instrumentos chamava atenção pelo formato em “V” estilizado que englobava todos os mostradores. Outro destaque era a opção do sistema de ar-condicionado da marca Harrison totalmente integrado ao painel.

Havia três níveis de acabamento: 150 (básico), 210 (intermediário) e o topo de linha (Bel Air) que acabou se transformando em sinônimo de Chevrolet nos anos de 1950. Comum também naqueles tempos era a ampla variedade de carroceria como sedã de duas ou quatro portas, hardtop (sem coluna central) de duas ou quatro portas, perua Deauville de nove lugares e o charmoso conversível. No entanto, a boa recepção ao protótipo no evento Motorama fez com que Earl encomendasse a seu departamento uma versão perua usando o mesmo estilo do Corvette Nomad. E ele queria o carro pronto em dois dias.

Já diz o ditado: tarefa dada, tarefa cumprida! A equipe liderada pelo projetista Carl Renner pegou afinco à ordem e conseguiu adaptar todos os elementos estéticos do Corvette Nomad ao Chevrolet 1955 como o teto longo canelado, a coluna B inclinada para à frente, amplas janelas laterais, vigia traseira envolvente e as sete tiras verticais na tampa do porta-malas, foram todos conservados de forma notavelmente às aplicadas ao do conceito apresentado em 1954.

Como o nome Nomad foi bem recebido pelo público a GM manteve a denominação no carro de produção. Outro detalhe que deferiu a Chevrolet Nomad de outras peruas da mesma época era a opção unicamente de duas portas, já que as station wagon daquele tempo eram obrigatoriamente oferecidas com quatro portas. Foi uma atitude ousada da GM, ou seja, a Nomad deixava de lado aquele jeito familiar tradicional para se posicionar como uma opção mais jovial e esportiva. Essa exclusividade tinha um preço, pois era o Chevrolet mais caro de todos os tempos: 2.571 mil dólares, ou 265 dólares a mais do que a versão Bel Air conversível, até então o modelo mais caro da linha.

CHEVROLET MAIS BONITO

Ao ser lançada a Chevrolet Nomad estava somente vinculada ao acabamento Bel Air, topo de linha marca da gravatinha. Para manter esse caráter especial toda a parte interna trazia forrações de bancos e portas exclusivas. Nos testes feitos pelas publicações de época era destaque a boa visibilidade e o rodar confortável. A revista Motor Trend o chamou de um dos carros mais bonitos do ano.

Para reforçar a pegada mais esportiva a perua Nomad estava disponível somente com o moderno motor V8 de 4,3 litros (265 pol³), “Turbo Fire”, o primeiro oito cilindros de bloco-pequeno da Chevrolet. Esse trem de força trazia inúmeras inovações, a começar pelo comando de válvulas sobre o cabeçote. Outra novidade eram os balancins estampados, leves, baratos e duráveis. Diferentes dos demais motores V8 da mesma época, o “small-block” da Chevrolet gostava de girar rápido já que sua rotação máxima era de 6.000 mil rpm. Para a Nomad havia duas opções de potência: 162 cv com carburador de corpo duplo ou o 180 cv com carburador de corpo quadruplo AC Rochester, taxa de compressão de 8:1 e saída dupla de escape.

Todo esse ar de exclusividade não surtiu efeito nas vendas planejadas pela GM, apesar do estilo jovial as vendas foram afetas justamente pela falta das duas portas traseiras, o que limitou o seu apelo entre os compradores de peruas. As vendas ficaram restritas apenas a 8 mil carros, sendo que o total da família Bel Air somou mais de 800 mil unidades. Com isso, o Nomad de 1955 tornou-se o Chevrolet de menor produção daquele ano.

Para 1956, o Nomad obteve algumas pequenas mudanças de estilo. A grade era maior e mais ampla e incluiu uma larga barra cromada que ladeava todo o conjunto, afastando do estilo “Ferrari” que muitos compradores não aprovaram. As pequenas lanternas presentes no Nomad de 1955 deram lugar a um conjunto de sinalizadores maiores. Além disso, a tampa de acesso do tanque de combustível estava agora escondida atrás da lanterna traseira esquerda. Outra medida foi padronizar o acabamento, que passou a ser igual ao dos demais carros de produção (em vez das costuras exclusivas de tipo "waffle" de 1955).

A Chevrolet esperava melhores vendas de Nomad, mas isso não aconteceu. Para efeito comparativo a versão perua de quatro portas no padrão de acabamento Bel Air tiveram vendas de dois para um. Naquele ano a Chevrolet contabilizou vendas totais na família Bel Air de 690 mil unidades, sendo que a Nomad permaneceu em 8 mil unidades. Até o modelo conversível, o segundo mais caro na hierarquia, vendeu mais de 40 mil carros.

Para a linha 1957 uma ampla reformulação estética foi aplicada aos veículos Chevrolet. Na dianteira um amplo capô fez com a grade ganhasse um desenho mais esguio, sendo unida por uma barra cromada. Os faróis receberam uma espécie de pestana sobre eles. Na traseira a mudança foi anda maior com a inclusão de uma maciça aleta que se prolongava após a tampa do porta-malas. Nas laterais a decoração em forma de “V” teve seu tamanho reduzido. No interior o Nomad seguiu o padrão de acabamento dos demais membros da família Bel Air.

A grande surpresa estava mesmo era debaixo do capô com a inclusão do novo motor V8 de 4,6 litros. A novidade era a opção da injeção mecânica de combustível Rochester, RamJet, que era comercializado pela GM como Super Turbo-Fire V8”. Quando equipado com sistema de injeção, o small-block da Chevrolet alcançava a impressionante marca de 1 cv por polegada cúbica (283 pol³, 283 cv), era a primeira vez que isso acontecia em um motor de fábrica nos Estados Unidos.

Entretanto nem o novo visual e o motor potente serviram para alavancar as vendas da perua Nomad. No final de 1957 a perua esportiva havia vendido apenas 6.200 unidades. Logo a GM notou que não havia mais espaço para manter o modelo em produção e no final daquele ano a Nomad despediu-se da linha de produção. Embora a Nomad seja considera um marco de design dentro do portfólio de carros da Chevrolet, era caro demais para continuar a justificar sua produção.

Nos dias atuais os baixos níveis de produção acabaram por tornar a Nomad uma verdadeira peça de coleção, o que ajuda a tornar o modelo ainda mais valorizado ao redor do planeta. Desse modo a Chevrolet Nomad entrou para a história como sendo a primeira “sport wagon” oferecida da grande público e o modelo provou que uma perua pode sim ter um espírito esportivo.

RARA CHEVROLET NOMAD 1957

Não há existência de alguma unidade da perua Chevrolet Nomad aqui no Brasil. Para efetuar essa matéria recorremos ao General Motors Heritage Center, localizado em Sterling Heights, Michigan, Estados Unidos. O local é o lar permanente para a coleção da corporação, além da literatura histórica e artefatos que documentam a rica história de inovação da GM.

O Centro possui mais de 165 veículos em exibição. Cada um dos carros da coleção ilustra um marco de projeto, técnico ou de vendas ou realização na história da General Motors ou na história automotiva. É o caso da Chevrolet Nomad 1957 que ilustra a reportagem que faz parte do último ano de produção, quando foram feitas apenas 6.103 unidades, tornando-se um dos modelos mais colecionáveis da série Tri-Five da Chevrolet.

 

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