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Alfa Romeo Alfetta, pequeno prodígio que revolucionou uma geração de carros da marca do coupê esportivo

Dotado de soluções técnicas sofisticas e peculiares, o Alfetta foi um laboratório de experiência da Alfa Romeo durante os 12 anos de produção

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Por Anderson Nunes


Avaliação da Matéria

Os primeiros carros da Alfa Romeo chamados de Alfetta foram dois modelos de corrida, o 158 e seu sucessor 159. Eles conseguiram vitórias em competições que o colocaram entre os mais bem-sucedidos monopostos do automobilismo. Correram entre 1938 a 1951, conseguiram obter 37 primeiros lugares em Grandes Prêmios, provas que antecederam a Fórmula 1. O Alfetta 158 ainda levou Giuseppe Nino Farina ao título no primeiro campeonato de Fórmula 1 disputado, em 1950. No ano seguinte, Juan Manuel Fangio foi campeão pilotando o 159.  

O nome ressurgiu 21 anos depois, dessa vez em uma linha de carros passeio, apresentado em junho de 1972. Os primeiros esboços do projeto Tipo 116 começaram a tomar forma no Centro de Estilo da Alfa Romeo, no final de 1967. A equipe era liderada por Orazio Satta e o projeto era de responsabilidade de Giuseppe Scarnati, a mecânica estava nas mãos de Giuseppe Busso. A tarefa deles era desenvolver um sedã de alto nível, confortável e impressionante que venderia junto com a eventual substituição aos modelos Giulia e 2000 Berlina, além disso, competiria diretamente com o novo BMW 2002.  

Embora nessa época a empresa milanesa já tivesse deixado de ser uma marca elitista e passado a ser um construtor de generalistas, a Alfa Romeo ainda carregava em seu seio histórico ser uma marca sofisticada e de classe. Essa áurea romântica e inovadora foi colocada no projeto do pequeno Alfa, mesmo que custasse uma boa quantia de investimentos que a empresa não disponibilizava em caixa. Foi nesse contexto de inovação que o projeto seguiu adiante com soluções técnicas para lá de avançadas para um segmento acostumado com o tradicionalismo mecânico.  

SUSPENSÃO DE DION 

O primeiro modelo a surgir trazia somente o denominação Alfetta, um sedã quatro portas de tração traseira e cinco lugares. O modelo médio possuia 4,28 metros de comprimento, 1,67 m de largura de largura, 1,43 m de altura e entre-eixos de 2,51 metros. Pesava pouco mais de 1 tonelada. Tinha características de estilo típicas da marca, como a frente reta e o escudo da marca ladeado por quatro faróis circulares. Nas laterais colunas estreitas e ampla área envidraçada. Chamava atenção a tampa do porta-malas elevada, solução técnica que só seria adotada de forma mais abrangente pela indústria automotiva mundial lá no final dos anos de 1980.  

Entretanto era no arranjo técnico que o pequeno Alfa Romeo se destacava. O Alfetta introduziu o sistema de transmissão com transeixo, no qual, embora fosse o motor dianteiro, a embreagem (de acionamento hidráulico) e a caixa de câmbio manual de cinco marchas ficava alojado na parte posterior do carro, em conjunto com o diferencial, para uma distribuição de peso mais equilibrada - como usada nos monopostos 158 e 159. O peso de todo o conjunto mecânico foi, assim, distribuído em valores próximos de 50% para a dianteira e para a traseira. Esse equilíbrio era ideal para a estabilidade e o comportamento dinâmico. Para reduzir as massas não suspensas, os freios a disco na traseira foram instalados internamente, ao lado da caixa de transmissão. A suspensão se baseava em braços duplos sobrepostos e barras de torção, na frente, e eixo rígido De Dion com molas helicoidas e ligação Watt na traseira. Todos os Alfetta saiam de fábrica com pneus Pirelli Cinturato 165HR14 (CA67).  

Tecnicamente falando, no entanto, a modernidade do carro ficou claramente evidente no estilo limpo e interior bem equipado para o conforto dos passageiros. O amplo teto apresentava grandes vigias dianteira e traseira, além de janelas laterais curvadas recém-projetadas, nunca vistas antes em um Alfa Romeo. 

A paleta de cores incluía Biancospino (branco Hawthorn), Grigio Indaco (cinza índigo), Cava bege (bege areia), Bleu olandese (azul holandês), Azzurro Le Mans (azul claro), Prugna (tom de ameixa), Rosso Alfa (Vermelho Alfa), Giallo Piper (amarelo) e Verde Pino (Verde pinho). O preto estava disponível somente como opcional. Tons metálicos incluíam cinza escuro, cinza claro e verde oliva. A maioria dos clientes da primeira série, no entanto, acabou por optar pelos tons mais conservadores (branco, azul e cinza claro metálico). 

O interior era tipicamente Alfa Romeo, com volante e detalhes do painel revestidos em madeira real. O painel trazia conta-giros à esquerda e velocímetro à direita, ladeados por três pequenos marcadores, nível de combustível, relógio de horas e temperatura do motor, além de luzes-espia. O volante de três raios podia ser regulado em altura. Os bancos eram revestidos em tecido. Entre os opcionais o cliente podia optar pelos bancos revestidos em couro, apoio de cabeça ajustável em altura e desembaçador do vidro traseiro.  

GAMA DE MOTORES 

O Alfetta ganhou destaque com novos clientes, que elogiaram o alto conteúdo técnico do modelo. O pequeno Alfa foi oferecido inicialmente somente com o motor de 1800 cm³. Debaixo do capô o clássico trem de força de quatro cilindros, duplo comando de válvulas acionado por corrente e câmaras de combustão hemisférica. Para alimentá-lo, dois carburadores de corpo duplo Weber ou Dell’Orto. A potência de 122 cv e torque máximo de 17 m.kgf proporcionava velocidade máxima 180 kmh. Devido ao bom comportamento dinâmico do Alfetta, o Comando Generale dell’Arma dei Carabiniere, a polícia militar italiana, tornou-se cliente assíduo do modelo.   

A crise energética que eclodiu em 1973 fez as vendas de automóveis caíram drasticamente no mundo todo. Assim no Salão de Bruxelas de 1975, surgiu o Alfetta equipado com o motor de 1,6 litro. Embora tenha conservado todo o refinamento mecânico da sua irmã mais velha, tais como o duplo comando de válvulas e dois carburadores de corpo duplo para obter 108 cv e torque de 14,5 m.kgf, o motor exigia altas rotações para um funcionamento mais eficiente, claro que isso prejudicava o consumo da versão 1,6 litro. Externamente a versão menos potente trazia como diferencial apenas dois faróis. Internamente o volante era revestido em couro sintético, não havia enxertos de madeira no painel e os instrumentos eram emoldurados em preto com um fundo azul claro. O porta-malas não era acarpetado.  

ALFETTA CRESCE EM TAMANHO 

Em março de 1977 era lançado, no Salão de Genebra, o Alfetta 2000, em substituição ao Alfa Romeo 2000. Este Alfetta tinha como diferencial o entre-eixos mais longo de 10,5 cm. O modelo ganhava faróis e lanternas quadradas, novos para-choques com polainas plásticas e rodas de liga leve. O interior passou a ter novo painel, volante três raios mais anatômico e revestimento de melhor qualidade. O motor foi derivado do modelo 2000 Berlina com 140 cv. A partir de 1978 o Alfetta 2000 foi vendido nos Estados Unidos como o Alfa Romeo Sport Sedan. Na Terra do Tio Sam, modelo recebia injeção de combustível Spica para enquadrar-se às leis antipoluição, e tinha potência de 111 cv.  

O Alfetta a diesel era a novidade em 1979: o sedã 2000 Turbodiesel, com motor de 2,0 litros produzido pela empresa italiana VM Motori que desenvolvia 82 cv e 16,5 m.kgf. Foi o primeiro veículo de passeio da Alfa Romeo a dispor de uma mecânica a diesel. Fez muito sucesso na Itália e França, onde a estrutura tributária se adequava a esse modelo. 

Em 1981, a Alfa Romeo desenvolveu, em colaboração com a Universidade de Gênova, uma versão experimental do Alfetta, equipada com um motor de desligamento parcial dos cilindros. Chamado Alfetta CEM (Controle Eletrônico do Motor), foi mostrado no Salão de Frankfurt. O motor de 2,0 litros desenvolvia 130 cv e incluía sistemas de injeção e ignição de combustível, comandados por uma unidade controle eletrônico que podia desligar dois dos quatro cilindros para reduzir o consumo de combustível. Um lote inicial de dez exemplares foi oferecido aos taxistas de Milão, para verificar a operação e o desempenho em situações real de uso. De acordo com a Alfa Romeo durante estes testes, o Alfetta CEM conseguiu reduzir o consumo de combustível em 12% comparado ao modelo sem o sistema de desativação e quase 25% em comparação o motor de 2,0 litros carburado. Após o primeiro ensaio, em 1983, uma pequena série de 1000 exemplares foi colocada à venda, oferecida a clientes selecionados.  

FIM DE UM GRANDE ALFA 

Em 1982 a linha Alfetta era racionalizada, os modelos 1,6, 1,8, 2,0 e 2,0 Turbo Diesel adotaram a carroceria e o interior dos modelos de 2.0 litros; já o nível de equipamento padrão tornou-se mais elevado. Todos os Alfettas tinham frisos de plástico preto, molduras laterais, além de novas calotas e rodas de liga-leve. No interior, aro do volante e pomo da alavanca de câmbio imitavam mogno. 

Os modelos a gasolina eram equipados com injeção mecânica e uma nova relação do câmbio e diferencial, mudança feita para reduzir o consumo de combustível. Outras modificações incluíam sistema de escape de aço inoxidável e um tratamento anticorrosivo mais eficaz para a carroceria. Independentemente do tipo de motor, o Alfetta infelizmente perdeu seu temperamento esportivo e a desenvoltura que eram tão apreciadas pelos Alfisti. 

A versão 2.0i Quadrifoglio Oro foi lançado em junho de 1982. Alguns dos recursos  eram típicos dos modelos de exportação para os EUA. O modelo tinha motor alimentado por uma injeção mecânica Spica com potência de 130 cv. Visualmente trazia quatro faróis, rodas de liga leve com desenho exclusivo e somente duas cores disponíveis: cinza ou marrom metálico. Internamente oferecia fechamento das portas centralizado, bancos, vidros dianteiros e traseiros elétricos. O acabamento era em veludo bege. 

Em março de 1983, o Alfetta recebeu sua última mudança visual, o exterior foi modernizado com novos para-choques dotados de protetor de borracha, spoiler dianteiro foi estendido até as caixas das rodas, grade incorporava o escudo da marca de menor dimensão. Na traseira as lanternas e a placa de sinalização ficavam alojadas dentro de uma moldura plástica. As saídas de ventilação da coluna C foram removidas. No interior o painel de instrumentos foi redesenhado e nos modelos de topo de linha havia um console suspenso que se estendia por toda a extensão do teto e abrigava três luzes de leitura. A versão Quadrifoglio Oro passou a ter injeção e ignição eletrônica Bosch Motronic. A potência era mantida em 130 cv, entretanto o torque aparecia em regime de rotação mais baixo, o que reduzia o consumo de combustível.  

Em abril de 1984, o sucessor do Alfetta estreava, era o Alfa Romeo 90. No final daquele ano, o Alfetta Berlina saia da produção, depois de 450 mil unidades terem sido produzidas durante 12 anos. 

PRIMA VERSIONE 

As Alfa Romeo Alfetta são populares no continente europeu e ao fazer uma pesquisa rápida na internet é possível encontrar o modelo sendo vendido em diversos anos e versões de acabamento. Aqui no Brasil, nós sabemos de pelo menos uma unidade do modelo nas mãos de um colecionador. A Alfetta que ilustra nossa reportagem teve as imagens cedidas gentilmente pela loja de carros antigos COG Classics, localizada na cidade Dortmund, Alemanha.  

Trata-se de uma Alfetta 1800 1972, logo um modelo da primeira série. É um veículo de único dono e foi faturada em 9 de junho de 1972, pela loja Enrico Marsiglia, na cidade de Benevento. Com apenas 49.000 km, esta Alfetta 1,8 é um original e único, peça rara para um verdadeiro "Alfisti". O interior encontra-se imaculado e traz revestimento dos bancos, laterais das portas e teto originais de fábrica. Outro atestado de originalidade são os manuais e notas de serviços.  

 

 

Fotos: COG Classics

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