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HB 20 1.0 3 cilindros - Junta de cabeçote queimada aos 40 mil km. Defeito ou falta de manutenção?

Esse veículo chegou à oficina no guincho porque não funcionava. Veja qual foi o teste que detectou o problema; desmontagem; torque e dicas imprescindíveis para executar a troca da junta do cabeçote

Por Tenório Jr.

Ficha técnica do motor

A Hyundai tem se mostrado cada vez mais competitiva no mercado brasileiro. A produção do modelo HB20 1.0 3 cilindros 80 cv é um claro exemplo dessa afirmação. Atenta às novas exigências do mercado, assim como outras montadoras, a Hyundai entra na disputa com muita força e plenas condições para se manter entre as melhores no segmento.

Dentre as características comuns adotadas pelas montadoras que se propuseram a fabricar veículos com motores tricilindricos, destaque para: economia de combustível; conforto e tecnologia que garante a potência necessária para satisfazer o usuário.

 

Os motores tricilindricos são mais compactos e mais leves. Com menos peças para gerar atrito, o resultado é ganho de potência, economia de combustível e, consequentemente redução dos índices de poluentes.

Mas, como nem tudo é perfeito, existe pontos que devem ser observados e informados a quem possa interessar, e é aqui que entra o meu trabalho!

Nesta matéria irei descrever um problema que ocorreu em um HB20 1.0 3 cilindros e que foi reparado em minha oficina e dar dicas de procedimentos e cuidados que o Reparador deve ter na execução desse tipo de serviço e cuidados que o PROPRIETÁRIO do veículo de ter para não ser vítima de problemas como esse.

O problema

O HB 20 chegou à oficina sobre a plataforma de um guincho, pois o motor não funcionava. Dava sinais de “vida”, mas, não pegava! Um sintoma parecido com falta de combustível.

Realizamos a rotina padrão de testes: teste de pressão e vazão de combustível; teste do sistema de ignição; verificação visual das velas e testes com o equipamento de diagnóstico. A única coisa que estava fora do normal era o parâmetro “AF” (relação ar/combustível) fora do normal, porém, não havia falhas gravadas na memória da ECU (Unidade de controle eletrônico ou módulo de injeção).

Observando uma mancha característica de vazamento de água do radiador (foto 04), é possível tirar duas conclusões:

1 – Apesar de ter passado pela concessionária em algumas revisões, por algum motivo, nota-se que faltou manutenção no sistema de arrefecimento;

2 – Os vestígios deixados pela água suja mostram que o motor sofreu superaquecimento. Nesse caso, deve-se considerar a hipótese de ter queimado a junta do cabeçote.

Baseado na segunda conclusão, fizemos o teste de vazamento de cilindros para verificar se a junta do cabeçote estava “queimada”.

 

Segue o passo a passo do teste:

1 – Retire as velas;

2 – Engate a 5ª marcha, levante uma roda dianteira e gire a roda para girar o motor até que o pistão do cilindro 01 atinja o PMS (ponto morto superior);

3 – Coloque o alongador  no furo da vela do primeiro cilindro e instale o “medidor de vazamento de cilindros” com o auxílio de uma mangueira para adaptação;

Obs.: O alongador é a mesma ferramenta utilizada para sincronizar os motores 1.0 e 1.3 16v do Fiat Palio.

 

4 - Aplique pressão de ar e observe o reservatório / radiador;

5 – Repita os procedimentos nos outros cilindros.

 

Conclusões dos testes

POSITIVO - Se a água transbordar indica que a junta do cabeçote não está vedando a câmara de combustão, o que resulta em dois problemas básicos:

1 - Passagem da compressão do motor passa para o sistema de arrefecimento, provocando danos nas mangueiras (estouro), vazamento de água pela tampa do reservatório, pela bomba d’água e qualquer outra peça do sistema que esteja mais suscetível às pressões elevadas. E a consequência de tudo isso é o superaquecimento do motor.

2 – Passagem da água do motor para a câmara de combustão; essa água impede a queima do combustível, logo, o carro pode falhar e em casos mais acentuados, o motor nem funciona.

NEGATIVO - Se não transbordar significa que a junta do cabeçote está vedando 100%.

No nosso caso, o teste confirmou a suspeita! Havia passagem de água para a câmara de combustão em dois cilindros, o que impedia a queima do combustível, logo, o motor não funciona!

 

Para ter certeza de que não havia outro problema que pudesse impedir o motor de funcionar, retiramos toda a água do sistema de arrefecimento e da câmara de combustão e funcionamos o carro. Ele pegou meio “quadrado”, mas logo ficou “redondinho”, com ótima aceleração e perfeita marcha lenta. Assim, comprovamos que o único problema que impedia o motor de funcionar era a água na câmara de combustão – diagnóstico concluído!

A causa do problema

Após ter diagnosticado o problema é importante detectar a causa para evitar a reincidência do defeito.

Sabemos que o que provoca a “queima” da junta do cabeçote é o superaquecimento do motor. Veja no quadro, as possíveis causas de um problema desse tipo:

 

No caso do HB 20, para tentar entender o motivo que originou a queima da junta do cabeçote, perguntei à proprietária do veículo em qual momento o carro “ferveu”. Segundo ela, um pequeno acidente danificou o radiador ao ponto de vazar toda a água. Como não sabia quais eram as consequências, foi embora com o carro funcionando; quando esquentava demais, ela parava e colocava água, seguiu assim até em casa.

Posteriormente ela substituiu o radiador, mas o motor continuou “fervendo” – já havia danificado o cabeçote e a junta!

Em tempo - Com o motor funcionando sem água para arrefecer, o superaquecimento é inevitável!

 

05 Dicas para o proprietário do veículo:

01 - Verifique o nível e estado (cor) da água, semanalmente e com o motor FRIO

02 - Não permita que o frentista do posto de gasolina verifique a água, porque com o motor quente, o nível e a pressão no sistema estarão elevados;

03 - Motor não consome água! Portanto, se estiver faltando é porque há vazamento e deve ser sanado!

04 - NÃO ANDE COM O CARRO SE O MOTOR ESTIVER SEM ÁGUA!

05 - Se estiver andando e a temperatura chegar ao limite máximo, estacione em local seguro e chame o guincho. Nesta situação há risco de queimar a junta do cabeçote e até de fundir o motor!

Procedimento para a execução do trabalho

Dica administrativa para os Reparadores: antes de remover o cabeçote, faça um orçamento prévio, constando todas as peças que inevitavelmente serão substituídas. Inclua uma ressalva sobre a possibilidade de encontrar mais alguma peça avariada. Além disso, informe ao cliente que pode haver a necessidade de ter que substituir o cabeçote, caso a altura ultrapasse o mínimo aceitável.

Nota: no caso específico do HB 20, o fabricante do veículo não recomenda nem a primeira plaina. Segundo eles, se o cabeçote estiver empenado deve ser substituído!

Em termos práticos, a coisa funciona um pouco diferente. Por experiência, é sabido que até um décimo e meio de material retirado da superfície inferior desse cabeçote, o funcionamento do motor fica inalterado. Acima disso, não há histórico e não é confiável!

Fique sabendo: quando ocorre o superaquecimento do motor o cabeçote empena, consequentemente, há passagem de gases/fogo por baixo da junta do cabeçote. Por isso dizemos que “queimou” a junta do cabeçote - Em alguns casos ela queima literalmente.

Retirando o cabeçote

Para retirar o cabeçote desse motor, será necessário remover todos os periféricos já conhecidos pelo amigo Reparador e também, a tampa da frente do motor, onde está localizada a bomba d'água e a bomba de óleo.

Após a retirada da tampa, coloque o motor em sincronismo observando os pontos das engrenagens dos comandos de válvulas e o PMS do primeiro cilindro. Retire o esticador da corrente e em seguida, a corrente.

Retire os comandos de válvulas, para ter acesso aos parafusos do cabeçote.

Com a ferramenta estriada de 10 mm solte os parafusos do cabeçote, das extremidades para o centro.

Dica importante: com o cabeçote na bancada, retire os tuchos com atenção para não inverter a ordem, porque cada tucho possui uma medida diferente. Se inverter a ordem dos tuchos a regulagem das válvulas certamente ficará comprometida, podendo ficar com batida de válvulas ou válvulas presas que podem interferir na marcha lenta e em casos extremos o motor nem funciona!

Montagem do cabeçote

Antes da montagem, vale lembrar que é de suma importância efetuar a limpeza minuciosa das peças envolvidas no processo, sobretudo, onde há vedação de fluidos e gases. Pois, um descuido na limpeza, pode custar outra mão de obra para desmontar e montar novamente.

Atenção! Por ser construído em alumínio, o bloco é um tanto quanto suscetível às temperaturas excessivas, portanto, é prudente verificar a planicidade da superfície com uma “régua” adequada.

Para a montagem do cabeçote é imprescindível a utilização de juntas originais e PARAFUSOS NOVOS para que resistam ao torque especificado pelo fabricante, que é de 1,5 kgfm na primeira etapa, 90º na segunda etapa e 120º na terceira etapa.

Porque o aperto em ângulo é necessário?

Em alguns casos, quando estamos apertando um parafuso com o Torquímetro, antes mesmo de chegar ao aperto final, pode acontecer de o parafuso dar uma “travada”, provocando um falso aperto; o aperto é utilizado justamente para evitar esse problema. Para isso, é necessário utilizar uma ferramenta específica - “chave para aperto angular”.

Se a especificação diz que o aperto é de 90º o parafuso deve GIRAR o correspondente a 90º. Assim, mesmo que o parafuso “trave” no cabeçote, a força aplicada no cabo de força, deverá ser ainda maior para vencer esse atrito até alcançar os 90º e 120º do exemplo citado.

 

Cabeçote devidamente apertado é hora de colocar os tuchos e os comandos de válvulas. Coloque os tuchos e os mancais dos comandos, na mesma posição e ordem que estavam para não ter surpresas desagradáveis.

Instale a corrente de comando respeitando os pontos do sincronismo. Após a montagem, dê duas voltas no motor para a corrente se ajustar e confira novamente as referências dos pontos, se estiver fora, refaça o procedimento!

Dica: para montar o esticador, coloque-o na posição de mínima regulagem e trave utilizando a sua própria trava. Para isso, coloque um objeto entre as duas “orelhinhas“ da trava para mantê-la fechada, depois que o tensionador estiver no lugar, retire o objeto para que ele possa atuar sobre a corrente de comando, esticando-a.

Bomba d’água

Antes de instalar, verifique se a bomba d’água está em ótimas condições de uso. Se houver qualquer indício de avaria, deve ser substituída para evitar problemas futuros.

Instalação da tampa da frente do motor

Para instalar a tampa da frente do motor, utilize uma junta líquida de alta qualidade e que suporte altas temperaturas.

Em tempo - Essa “cola” na concessionária custa, pasmem! R$ 435,85 quase cinco vezes a mais que o preço que pagamos em uma similar cuja a marca é referência no mercado e cumpre a função muito bem!

Importante: para garantir a eficiência da junta líquida é necessário respeitar o tempo de cura do produto. Segundo especificações do fabricante da junta líquida (silicone), o tempo de cura mínimo é de 24 horas após a montagem.

Válvula termostática

A válvula termostática tem a função de controlar a temperatura do motor, impedindo-o que esquente demais ou esfrie demais.

Esse é um componente que muitas pessoas desconhecem a sua função e importância, no entanto, é uma peça imprescindível para o ótimo funcionamento do motor.

 

Funcionamento da válvula termostática

Na fase fria do motor até aproximadamente 85° a válvula termostática permanece FECHADA, assim, o líquido de arrefecimento fica circulando apenas dentro do motor, permitindo que a temperatura ideal seja atingida o mais rápido possível.

Quando o líquido de arrefecimento atinge, em média, 85° a válvula se abre permitindo que o líquido quente do motor circule pelo radiador e a água fria que está no radiador passe para o motor. Enquanto o motor estiver acima de 85° a válvula permanecerá aberta para permitir a circulação do líquido entre o motor e radiador, impedindo que o motor aqueça demasiadamente.

Para entender melhor, imagine que o veículo esteja numa rodovia a 100 km/h e a temperatura externa do ar, esteja a 10°C. Com a válvula ABERTA o motor tende a esfriar muito, é aí que inicia a segunda função da válvula termostática, ela se fecha impedindo que o líquido frio do radiador esfrie por demais, o motor. Assim, independentemente das circunstâncias, a temperatura se mantém próxima de 90°, promovendo redução do consumo de combustível e de emissão de poluentes.

Aditivo para o sistema de arrefecimento

O aditivo para radiador é importante para o sistema porque protege as peças metálicas da corrosão, aumenta o ponto de ebulição da água, evita o congelamento da água e equilibra o PH da água para que ela não fique alcalina.

Água desmineralizada

No sistema de arrefecimento não se deve utilizar água de torneira, de rio, nem de chuva. Utiliza-se a água desmineralizada porque ela é isenta de cloro e de minerais.

Para obter a máxima eficiência do aditivo, é necessário que a mistura, água desmineralizada e aditivo, esteja na proporção indicada pelo fabricante do produto e o sistema de arrefecimento deve estar limpo!

Quando devo colocar aditivo?

Trocar o líquido de arrefecimento faz parte das manutenções periódicas e preventivas; deve ser substituído, em média, a cada dois anos para carros novos e a cada um ano para carros com mais de dois anos de uso, podendo variar de acordo com o fabricante do veículo - Verifique manual do proprietário.

Considerações finais

Cada dia mais, os fabricantes de automóveis investem em desenvolvimento e tecnologia para produzir veículos com motores compactos, mais leves, mais potentes, mais econômicos e menos poluentes, que é o caso dos motores tricilindricos.

De fato, em geral esses carros são eficientes e conseguem atender as necessidades dos seus consumidores. Entretanto, há um conceito que muitos ainda não sabem: “quanto maior for a tecnologia aplicada, mais rigorosa deve ser a manutenção”. Além disso, é importante ressaltar que a falta de conhecimentos básicos sobre a manutenção do veículo, por parte do proprietário, pode causar problemas dispendiosos, como o apresentado nesta matéria.

Já se foi o tempo que dava pra ficar alienado das questões que envolvem a manutenção do carro. O motorista deve saber conceitos básicos como: o que fazer se faltar água? O que fazer se o motor superaquecer, mesmo tendo água? Como, quando e onde devo fazer as manutenções preventivas?

Para o Reparador automotivo o conceito é o mesmo, só muda a perspectiva: “quanto mais tecnológico for o carro, mais criterioso o Reparador deve ser e mais conhecimento técnico ele deve ter para não cometer erros - nesses casos, eles costumam ser bem caros”.

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