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Fiat Tipo 16V, o desempenho do motor multiválvulas em um hatchback familiar

Importado da Itália, o Tipo 16V conciliava o conforto e segurança com performance de um esportivo puro sangue

Por Anderson Nunes

Em dezembro de 1994 chegava ao mercado, o Tipo 2,0 16V, o hot hatch da Fiat que desenvolvia 137 cv. Rodas exclusivas, saias laterais e um filete vermelho traziam esportividade na medida certa ao estilo

A Fiat consolidou suas operações no Brasil o início da década de 1990. A primeira grande virada comercial aconteceu com o lançamento do Uno Mille, favorecido pela nova alíquota de imposto para veículos dotados de motor de 1 litro. Prático, econômico e moderno a versão “Mil” do Uno possibilitou a inúmeros brasileiros o acesso ao primeiro carro 0 km. E graças a essa visão mercadológica agressiva, a Fiat Automóveis conseguiu superar-se no conquista de maior participação no mercado. Se em 1988 ela tinha apenas 11,3% do mercado, em 1993 já havia saltado para 23,0%, tornando-se a segunda maior fabricante de veículos do país graças ao sucesso do Uno Mille.

Ter um modelo para competir no rentável segmento de médios seria uma boa jogada mercadológica para a Fiat, pois mostraria aos seus clientes que ela também sabia fazer carros de luxo e potente. Assim, em novembro de 1991, era apresentado sedã Tempra. Adotava linhas modernas e elegantes quando comparadaàs dos concorrentes como Chevrolet Monza, VW Santana e Ford Versailles. Com o Tempra a Fiat ofereceu o primeiro motor de 16 válvulas do mercado brasileiro, assim como o primeiro modelo médio dotado de motor turbinado de fábrica. Para quem quisesse mais espaço para a família foi oferecido em pequena quantidade o modelo familiar, o Tempra SW, importado da Itália. Aliás, o intercâmbio entre a matriz na Itália e a filial brasileira seria intenso no decorrer daquela década.

A versão duas portas traseira um grande vidro lateral que contribuía para a boa visibilidade, na versão esportiva as lanternas tinham desenho diferenciado

Motor suave, potente e elástico, características que davam prazer ao pilotar,fazia 9,85 segundos no 0 a 100 km/h e máxima de 204 km/h

Grandes portas facilitavam o acesso ao interior e as laterais das portas recebiam o mesmo tecido dos bancos

A versão 16V contava com aro do volante revestido em couro e de boa pegada

TIPO NO BRASIL

Atenta às novas oportunidades de mercado, em setembro de 1993 chegava ao Brasil o hatchback Tipo, modelo que preenchia a lacuna entre o compacto Prêmio eo médio Tempra. Com um sistema otimizado de logística –o Tipo era embarcado nos mesmos navios que exportavam para a Europa os Uno e Elba brasileiros -- e uma estratégia de marketing agressiva, a Fiat conseguiu uma proeza: vender um carro ainda moderno e com bom equipamento de série (incluindo direção assistida, opcional nos concorrentes) por um preço muito interessante, US$ 17 mil à época.

A princípio era oferecido apenas na versão de duas portas e única de acabamento, a 1.6 i.e., que não era luxuosa, mas oferecia os opcionais mais desejados no segmento, como ar-condicionado, controle elétrico dos vidros e travas e até teto solar. O revestimento dos bancos era emtecido claro, numa época em que predominava o preto. O motor 1,6litro, o mesmo dos Fiats nacionais, tinha injeção eletrônica monoponto Bosch M.A. 17 e potência de 82 cv, 10 cv a menos que no Uno 1.6R mpi lançado pouco antes. Embora adequado ao uso familiar, graças ao bom torque de 13,3 m.kgf, atingia velocidade máxima de 160 km/h e fazia de 0 a 100 km/h em 15 s. Com uma aerodinâmica apurada para a época (Cx de 0,31) o Tipo oferecia um bom nível de consumo de combustível: 9,41 km/l na cidade e 14,09 km/l na estrada.

Chamavam a atenção detalhes bem pensados: segunda chave "de manobrista" (não abria porta-luvas e porta-malas), dobradiças pantográficas no capô (para grande ângulo de abertura), banco do passageiro dianteiro com memória de posição (após afastado para o acesso, no caso do três-portas, retornava ao ajuste anterior de distância), tampa do porta-malas em plástico de alta resistência e um bom volante de quatro raios.

Curioso eram duas luzes traseiras de neblina, contra apenas uma na maioria dos carros, mas seu acionamento pela alavanca à esquerda do volante levava muitos a confusão, acendendo-a sem necessidade Para quem apreciava dirigir, um dos melhores conjuntos de pedais já vistos. Um porém ficava por conta do sistema do limpador de para-brisa, que não possuía duas velocidades mais funcionamento intermitente: apenas uma (rápida) e a intervalada, embora fosse de alta frequência. Faltavam também freios a disco ventilados na dianteira, que o Uno usava desde o 1.5R de 1986.

Chamava a atenção também o espaço interno, bastante amplo para um médio, e o porta-malas. Pouco tempo tempos depois a Fiat lançava a versão de quatro portas, que oferecia um grande ângulo de abertura, o que deixava o Tipo mais confortável que os concorrentes diretos, o que logo se refletiu nas vendas: a previsão inicial era vender 1.500 unidades mensais, meta que a Fiat conseguiu atingir com folga e logo o modelo tornou-se o importado mais vendido e chegou a desbancar o Gol da liderança do mercado por um mês, em 1995. Na ocasião vendeu 1.785 unidades a mais que o queridinho da VW.

FAMÍLIA AMPLIADA

Graças ao estrondoso sucesso alcançado pelo Tipo a Fiat resolveu ampliar a linha com uma versão mais luxuosa. Em julho de 1994 chegava o Tipo SLX de 2,0 litros. O motor de duplo comando e 1.995 cm³ trazia diferenças em relação ao do nosso Tempra oito válvulas: tinha injeção multiponto, em vez de monoponto, e duas árvores de balanceamento, para anular as vibrações características presentesno trem de força do modelo nacional. Os 115 cv da Europa caíam para 109 no Brasil, pela adaptação à nossa gasolina que à época tinha 22% de álcool, mas o desempenho surpreendia: velocidade máxima de 188 km/h. Com o torque de 16 m.kgf a apenas 2.750 rpm, nem seria preciso encurtar a relação de diferencial, como fez a Fiat para vendê-lo aqui.

Para um modelo hatch o Tipo conta com um bom porta-malas e ausência das caixas de roda pronunciada facilita acomodação da bagagem

Painel de instrumentos com grandes mostradores e de fácil visualização, características bem próprias dos carros da Fiat

Manômetro e termômetro de óleo faziam do painel do Tipo 16V um dos mais completos daquele tempo, Check-Control era outra característica do modelo

Pedal do acelerador em alumínio vazado lembrava que o Tipo 16V era um carro que podia ser guiado de forma esportiva

Trocadilho ‘tipo potente”, era estampado na plaqueta de identificação do modelo.

A versão SLX, era oferecida somente com quatro portas e trazia acabamento mais refinado. Os assentos eram revestidos com um tecido mais elaborado que também era estendido às laterais de portas. Já o banco do motorista contava com ajustes de altura e de apoio lombar, apoio de braço central dianteiro, retrovisores e parte dos para-choques pintada na mesma cor da carroceria. Entre os itens exclusivos estavam os faróis de neblina e asrodas de alumínio que calçavam pneus 185/65, mais largos que os do 1,6 (175/65) e mais altos que os 185/60 empregados na Europa. No campo da segurança a versão SLX inovava ao oferecer como opcionais os freios a disco nas quatro rodas com o sistema antitravamento (ABS) e air-bag para o motorista, uma primazia no segmento.

TIPO ESPÍRITO ESPORTIVO

Nem mesmo as previsões mais otimistas da Fiat iriam dar conta do sucesso do Tipo. O modelo havia se tornado o importado mais vendido do país e suas vendas aumentavam mês a mês: entre agosto de 1993 a novembro de 1994havia sido comercializados um total de mais de 64 mil unidades. No segmento de médios o modelo da Fiat despontava com mais de 55% de participação de mercado. Disposta a ampliar a família Tipo que já contava com as versões 1,6 litro de duas e quatro portas e a SLX de 2 litros, a montadora de Betim resolveu acrescentar um modelo de imagem. Em novembro de 1994 era lançado o Tipo 2.0 16V, ou Sedicivalvole, nome estampado com orgulho na moldura da placa traseira.

A atração era o motor multiválvulas, que tinha apenas a arquitetura semelhante ao do nosso Tempra 16V. No restante oferecia substanciais diferenças, a começar pelas árvores de balanceamento que deixavam o motor mais suave em funcionamento. Na parte interna do trem de força a unidade italiana trazia bielas trimetálicas e válvulas de escape bimetálicas, jatos de óleo para refrigerar as cabeças dos pistões e radiador de água com maior poder de arrefecimento. Devido à presença de álcool em nossa gasolina o motor perdia potência, atingia 137 cv (5 cv menos que na Europa), contra 127 cv do sedã brasileiro, e 18,4 m.kgf de torque a altos 4.500 rpm. A Fiat anunciava máxima de 204 km/h, tornando-o um dos hatches esportivos mais velozes do mercado nacional.

O visual externo era de bom gosto e sem exageros, trazia saias laterais largas, frisos vermelhos que percorriam os para-choques e laterais, alémde rodas de liga-leve exclusivas. As lanternas traseiras também apresentavam lentes específicas. Na Itália era usado aro 15 pol com pneus 185/55, mas a Fiat temia que o perfil muito baixo provocasse danos em buracos. Aqui, optou pelo aro 14 pol e pneus 195/60. As molas ficaram mais rígidas, perdendo um pouco a maciez ao rodar, mas contribuíam para a boa estabilidade. Oferecia freios a disco nas quatro rodas com sistema ABS opcional.

O interior do Sedicivalvole trazia bancos esportivos (os Recaros eram opcionais), volante revestido em couro e painel completo, incluindo manômetro e termômetro de óleo. Um toque para lembrar os grandes carros esportivos, o pedal do acelerador era de alumínio vazado. O teto-solar com acionamento elétrico era item opcional. Vinha apenas com duas portas, embora poucas unidades tenham sido importadas com quatro portas também. Enquanto as versões mais "comportadas" do Tipo concorriam com Kadett, Escort e VW Pointer, o 16V enfrentava outros esportivos como Golf GTI (à época com modestos 115 cv), Citroën ZX 16V (155 cv) e Renault 19 16S (139 cv).

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