Do Fundo do Baú - Anderson Nunes

Dodge Charger R/T: o mítico muscle car verde e amarelo que marcou uma época

A Chrysler, com base no Dart cupê, lançou o seu primeiro esportivo Made in Brazil, o Charger R/T, que com seu motor V8 de 215 cv fez a alegria de uma geração

Charger R/T em movimento, um estilo que consagrou a Chrysler do Brasil como fabricante de esportivos V8 no Brasil
Ao ser lançado no mercado brasileiro, em 1969, o Dodge Dart provocou uma verdadeira revolução. Como um típico modelo norte-americano, assim como seu compatriota Ford Galaxie, lançado dois anos antes, o Dart também vinha equipado com um grande motor V8 e trazia um estilo que de certa forma estava alinhado com o do seu similar estadunidense. O que a Chrysler nunca escondeu era o fato de que a linha Dart seria paulatinamente acrescida de novas versões e carroceria. 

A prova maior disso foi em julho de 1970, ocasião em que a revista Quatro Rodas fotografou um Dart cupê vermelho sendo testado pela equipe de engenharia da Chrysler na BR 116. Naquele momento a publicação já sabia que uma versão esportiva estava a caminho e que traria algumas mudanças substanciais em estilo, motor e acabamento. Seguindo o cronograma de lançamento em outubro de 1970 era lançada a versão Dart cupê, de duas portas e sem coluna lateral, tendo como novidade a opção da direção com assistência hidráulica. Entretanto a cereja do bolo estava reservada para o VII Salão do Automóvel, que abriria suas portas no dia 21 de novembro. 

No evento a Chrysler trouxe à luz o seu modelo esportivo “Made in Brazil” e que tinha detalhes do Dart GTS comercializado no mercado norte-americano, mas com a denominação do seu mais famoso esportivo: o Dodge Charger, um verdadeiro Muscle Car. O Charger distinguia-se do irmão Dart pelo estilo intimidador e pela gama de opcionais oferecida, fazendo dele o modelo mais cobiçado do país. 

AMERICAN PIE
Tão típico quanto uma torta americana de maçã, o Charger R/T, com sua sigla que significava road and track (estrada e pista em inglês), realçava sua exclusividade com diversas diferenças em relação à linha Dart, a começar pela grade dianteira, feita com frisos horizontais em alumínio. Esta peça, desenhada pelos estilistas da Chrysler do Brasil, é uma exclusividade do modelo nacional e nunca foi disponibilizada para os modelos norte-americanos. Ela cobria os faróis e faroletes, que além de oferecer um aspecto diferenciado, também deixava a dianteira do modelo com feição intimidadora. Já nas laterais havia uma faixa preta com a sigla R/T. Na traseira foi adotado um prolongamento, tipo rabeta, que estendia-se sobre o para-lama e por fim teto de vinil corrugado. 

Os faróis ocultos atrás da grade eram “marca registrada” do Charger R/T, recurso estético exclusivo do modelo brasileiro
O capô ornamentado por falsas entradas de ar deixava a dianteira ainda mais exclusiva
Tomando como base o Dart cupê, os estilistas da Chrysler do Brasil criaram um modelo de linhas agressivas e cheias de personalidade
Cupê hardtop, ou seja, sem coluna central, combinava bem para um veículo esportivo e isso ficava mais evidente com as faixas douradas
Internamente o requinte ficava por conta dos bancos dianteiros individuais mais baixos com console central, câmbio de quatro marchas com alavanca no assoalho, direção com assistência hidráulica, volante de três raios com aro de madeira da marca Walrod e no lugar do relógio de horas foi acrescentado um pequeno conta-giros. Como opcional havia o ar-condicionado.

Ao erguer o capô lá estava o mesmo motor V8 de 5,2 litros que apresentava algumas diferenças em relação ao usado pelo Dart. Esteticamente trazia alguns componentes cromados – como filtro de ar e a tampa do comando de válvulas. A maior taxa de compressão, de 8,4:1 em vez de 7,5:1, obrigava o uso de gasolina azul de maior octanagem, além disso o sistema de escape 8x2, um para cada bancada de cilindros, colaborava para que o motor desenvolvesse 215 cv e 42,9 m.kgf de torque, ante aos 195 cv e 41,5 m.kgf do Dart. Todo esse pacote esportivo possibilitou ao Charger R/T ser o carro mais veloz do país naquela ocasião, com velocidade real de 190 km/h e aceleração de 0 a 100 km/h em 10s. Para freá-lo a Chrysler o equipou com um novo sistema de freio a disco na dianteira de 12 polegadas. 

CRL_0952 – Sob o capô está a joia da Chrysler, o mítico motor V8 de 5,2 litros (318 pol ) com potência de 215 cv que faz a carroceria pender de lado a cada acelerada
Para linha 1972 pequenas alterações de estilo foram realizadas. O esportivo conservou a mesma grade, mas agora pintada em preto fosco com rebaixamento na parte central com inclusão do logotipo Charger. O capô ganhou um par de travas externas cromadas, semelhantes às utilizadas em carros de competição, além duas grandes faixas em preto fosco. As faixas laterais foram redesenhadas, ficando um pouco mais discretas; elas continuaram a percorrer toda a lateral da carroceria. Já as lanternas traseiras passaram a ter três segmentos, sendo o central reservado para luz de ré.

O interior recebeu bancos com um novo desenho em seu revestimento de couro. O volante de três raios teve seu acabamento trocado por courvin. O painel passou a ser revestido em plástico imitando madeira, com exceção da tampa do porta-luvas. Os instrumentos ganharam fundo branco, o velocímetro perdeu hodômetro parcial. O pisca-alerta, com botão abaixo do painel, passou a ser item de série. O sistema de ventilação ganhou uma única alavanca que comandava o ventilador e a distribuição de ar.  

Abaixo do porta-luvas está o sistema de ar-condicionado, um item opcional presente em poucos Charger R/T
CONCORRÊNCIA ACIRRADA

Com o lançamento dos modelos esportivos Opala SS cupê e Maverick GT, o Dodge Charger R/T ganhou novos concorrente e isso fez a Chrysler adotar uma rápida mudança visual para a linha 1973. O visual agressivo ficou mais evidente com nova grade dianteira, bipartida, com contornos cromados. Os faróis agora eram duplos (ainda escondidos atrás da grade, que lembrava ainda mais o Charger norte-americano) com luzes de seta na cor âmbar entre elas. As lanternas traseiras foram redesenhadas, novamente com lentes em acrílico vermelho. O capô perdeu as travas, mas ganhou duas tomadas falsas de ar, sobre cada bancada de cilindro, que apesar de não terem funções procuravam dar um ar mais agressivo.  

Por dentro destacavam os bancos, mais anatômicos e com apoio de cabeça integrado. Os instrumentos tiveram a grafia trocada, com fundo metalizado. O painel passou a ter revestimento em plástico que imitava cerejeira. Já alavanca do pisca passou a contar com um botão para lampejar os faróis. Uma inovação foi a inclusão de uma pequena alavanca abaixo do quebra-vento da porta do motorista para regular o espelho retrovisor. Como opcionais havia o estofamento em couro, pintura metálica, pneus de letras brancas (7,35-14S) e cintos de segurança torácicos.

Para 1974, a direção hidráulica Gemmer foi substituída pelo sistema da ZF. Outra novidade era a opção do câmbio automático com alavanca no assoalho com bloqueio do conversor de torque na terceira e última marcha. Seguindo o passo da matriz, a Chrysler instalou no R/T o sistema de ignição transistorizada, ou também conhecida como ignição eletrônica, que deixava o motor regulado por mais tempo e eliminava o uso do platinado. Esteticamente as faixas laterais ficaram mais estreitas e agora havia a possibilidade de comprar o modelo com teto e bancos revestidos em tom caramelo, nessas unidades as faixas eram douradas. As rodas passaram a ser as mesmas utilizadas pelo Dart, porém com a inclusão de sobrearos, calotas especiais e anéis cromados nos furos de arrefecimento. 

Painel de instrumentos minimalista: velocímetro, discreto conta-giros ao centro e luzes-espia, incomum a um esportivo era o revestimento que imitava o padrão de cerejeira
POTÊNCIA COM ECONOMIA

Com a crise do petróleo deflagrada em 1973 e consequentemente o aumento dos preços da gasolina, a Dodge passa a oferecer como opção o sistema Fuel Pacer System (sistema de moderador de consumo de combustível). O recurso acionava os repetidores de luzes de direção dos para-lamas dianteiros, à vista do motorista, sempre que o pedal era pressionado até certo ponto. Não havia nenhum tipo de corte de combustível, o sistema alertava que o consumo estava excessivo.

No Charger R/T 1975 foram acrescidas como de costumes novas faixas laterais, com um filete extra que contornava por inteiro e cobria todo o vinco da carroceria. O emblema Charger R/T foi posicionado abaixo do vidro traseiro. Outra novidade foi a garantia ampliada para os modelos equipados com transmissão automática para 50 mil km. Para linha 1976 poucas mudanças efetuadas e ficando concentradas no interior, onde finalmente o modelo passou a contar bancos de encosto alto. O painel foi redesenhado e ganhou nova grafia de instrumentos. Os comandos das lanternas/faróis e limpador de para-brisa passaram a ser embutidos. Já o comutador de farol alto e baixo foi incorporado ao comando dos indicadores de direção na coluna.    

COMEÇO DO FIM 
Já na linha 1977 o Charger R/T teve a taxa de compressão reduzida de 8,4:1 para 7,5:1, ficando igual à dos demais modelos, essa redução possibilitou o uso da gasolina amarela, comum, mais barata e fácil de encontrar que a azul. Essa mudança fez com a potência caísse de 215 cv para 205 cv sempre no mesmo regime de 4.400 rpm. O torque teve uma leve diminuída, passou de 42,9 m.kgf para 42 m.kgf. Com isso a velocidade máxima ficou na casa dos 180 km/h e a aceleração de 0 a 100 km/h em 11,82 s. 

Os vidros originais laterais são da marca Blindex
Externamente as laterais ganharam faixas duplas, ficaram bem próximas até ultrapassarem a porta, para depois alargarem para alojar o emblema Charger R/T. Internamente foi disponibilizado o estofamento em couro vermelho, além dos tons de caramelo e preto. Entretanto o volante de três raios Walrod cedeu lugar a um novo com grande miolo central e quatro pequenos raios, já utilizados nos demais modelos Dodge, clara redução de custos. 

A parte mecânica novamente foi revista pela engenharia da Chrysler em 1978, assim o carburador DFV foi recalibrado para melhorar o desempenho do R/T em baixas velocidades, mas o custo disso foi o aumento sutil do consumo de combustível. Uma mudança aguardada foi a adoção, como opcional, dos pneus Pirelli Cinturato CN15 na medida 185/14. Esteticamente o Dodger Charger R/T perdeu as falsas entradas de ar no capô, enquanto a cobertura de vinil, antes inteiriça, passou a cobrir apenas a metade posterior do teto. O R/T podia vir agora com teto de vinil na cor branca e bancos de couro na tonalidade azul. As faixas externas ganharam um novo desenho que percorria toda a lateral próxima às caixas de roda. 

A rabeta sobre o para-lamas era um item que dava um charme à traseira do Charger R/T
Sem o mesmo fôlego para atuar no Brasil, a Chrysler fez pequenas mudanças estéticas para a linha 1979. Na dianteira, o visual era inspirado nos modelos norte-americanos de 1975, com a grade um pouco mais alta na região dos faróis, um pequeno “bico” no centro. No Charger R/T na frente os quatro faróis passaram a ser alojados em uma caixa plástica sem grade que os escondia. A lateral era mais simples, já que as rabetas nas colunas traseiras foram abolidas, além disso foi instalada uma espécie de persiana que cobria a janela lateral traseira, inspiração vinda do modelo estadunidense Dodge Aspen R/T. Na traseira foram adicionadas quatro pequenas lanternas, as mesma do Dodge Dart norte-americano de 1975. 

Outra novidade era a pintura em dois tons: marrom metálico/bege, azul escuro metálico/azul claro metálico e preto/prata, sendo que a tonalidade mais escura cobria o capô e a metade do teto, já o tom mais claro era adicionado ao restante da carroceria. Apesar ter perdido o caráter esportivo em detrimento do luxo, o Charger R/T ganhou rodas de liga leve, sendo a primeira grande fábrica a adotar tal item, antes disso somente a Puma e pequenos fabricantes fora de série ofereciam rodas de liga leve. Um retrocesso foi que os pneus radiais antes de série passaram a ser opcionais. 

O painel de instrumentos perdeu o conta-giros e no lugar dele foi instalado um relógio de horas. Os bancos perderam o revestimento em couro e passaram a ser de tecido que combinava com as cores externas. O motor V8 permaneceu o mesmo, porém o tanque de combustível que antes tinha apenas 62 litros, foi substituído por um bem maior, de 107 litros. Dessa modo ganhou-se em autonomia, mas havia uma perda na capacidade do porta-malas. Essa medida foi tomada devido à crise do petróleo, quando os postos de combustível fechavam das 20h às 6h nos dias úteis e totalmente nos fins de semana.

O canto do cisne do Charger R/T se deu em 1980. O modelo ganhou novos equipamentos como limpador de para-brisa com temporizador, lavador elétrico do para-brisa, espelho no para-sol direito com luz. O R/T também perdeu a pintura bicolor e as persianas da janela traseira. O preto voltou ao catálogo de cores depois de cinco anos. No final do ano o Charger R/T despedia-se da linha de produção, encerrando um carreira de 10 anos de mercado. Ele marcou uma época entre os esportivos nacionais, encantando muitas gerações com seu potente motor V8 e seu estilo único que ganha admiradores até nos dias de hoje.

CHARGER R/T RESTAURADO A QUATRO MÃOS
Os amigos Alexandre Mesquita e Arnaldo Muzio Júnior são dois apaixonados por veículos antigos. Nascidos e criados na cidade de São Bernardo do Campo, a meca do automóvel do Brasil, eles cresceram vendo e ouvindo o ronco dos míticos Dodge e Ford com seus motores V8. Essa paixão pelos motores de oito cilindros fizeram que cada um dos amigos tivesse sua marca do coração: Alexandre, que é publicitário, é fã dos Fords, já Arnaldo, arquiteto, é admirador dos Dodges.

Mesmo com esse “Fla-Flu automotivo”, os dois amigos trabalham em conjunto quando o assunto é restaurar um veículo antigo e raro como é caso do Dodge Charger R/T 1975 que ilustra essa reportagem na rara combinação triplo black (carroceria/teto/interior preto). “Compramos esse Charger R/T para restaurá-lo nos mínimos detalhes, curtir o carro e salvar mais um modelo que marcou época”, disse Mesquita. 

A maçaneta cromada destaca-se na lateral toda preta
O Dodge Charger R/T foi comprado de um amigo em comum que já tinha o Charger há mais de 20 anos. Durante esse período tentou restaurá-lo mas nunca teve condições financeiras e técnicas para terminar tal empreitada e o carro acabou ficando parado na garagem. ”Nós sabíamos do valor histórico daquele Charger R/T preto e por isso fizemos a oferta de compra. Nosso amigo resolveu nos vender o carro pois sabia que já tínhamos restaurado outros muitos no passado e que esse carro ficaria perfeito em nossas mãos”, explicou Muzio.

Assim que o adquiriram os amigos Alexandre e Arnaldo logo arregaçaram as mangas e partiram para o restauro e dar vida ao mítico Charger R/T. O veículo foi restaurado nos mínimos detalhes, mantendo a mais absoluta originalidade, porém as maiores dificuldades foram achar mão de obra especializada no restauro e o alto valor das peças. 

Mas desde o início esse Charger R/T não ficaria repousando na garagem, já que desde o início da sua compra já era pensado em vendê-lo. O intuito dos amigos sempre foi devolver a glória a esse muscle car verde e amarelo. “Nossos planos são de vender esse Charger para completar outra coleção e a partir daí seguir na compra de um outro carro e começarmos tudo outra vez, ou seja salvar mais um Dodge. Nós Gostamos de poder resgatar esses carros e devolver sua glória”, disseram os amigos.

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