Oficina Brasil

Publicidade

Mon09012014

Última atualização11:53:57 PM GMT

Alfa Romeo 2300, o carro importado feito no Brasil

Avaliação do Usuário: / 20
PiorMelhor 
abertura-fundo-do-bau
fundo-do-bau-1
fundo-do-bau-2
fundo-do-bau-3
fundo-do-bau-4
fundo-do-bau-5
fundo-do-bau-6
fundo-do-bau-7
fundo-do-bau-8
fundo-do-bau-9
fundo-do-bau-10
  • Anterior
  • 1 of 11
  • Próximo

Acompanhe a história deste incrível brasileiro de alma italiana que encantou gerações e, ainda nos dias de hoje, carrega uma legião de fãs entre proprietários e reparadores

O Brasil do final dos anos 60 e início dos anos 70 estava em uma verdadeira efervescência cultural e econômica. Vivíamos os áureos tempos do chamado milagre econômico e o mercado automotivo nacional acompanhava a passos largos tal acontecimento. Já no começo da década de 1970, chegávamos à produção anual de meio milhão de veículos. Os pioneiros da indústria automobilística nacional como Simca Chambord, Aero-Willys, DKW-Vemag, já tinha dado adeus ao mercado.

Por outro lado os fabricantes locais já ofereciam modelos que de certa forma estavam em sintonia com os países de origem, como Chevrolet Chevette ou Volkswagen Passat ou mesmo eram desenvolvidos em solo brasileiro, como a Brasília. Indiferente às mudanças de mercado, estava a estatal FNM – Fábrica Nacional de Motores, que havia passado em 1968 para as mãos da Alfa Romeo italiana. Até aquele instante a empresa só oferecia o modelo FNM 2150 conhecido popularmente como JK e que ao longo dos tempos sofreu inúmeras mudanças estéticas e mecânicas. Lançado em abril de 1960 era inovador em muitos aspectos como o câmbio de cinco marchas, duplo comando de válvulas, cabeçote em alumínio e pneus radiais, mesmo com esses atributos o veículo já não era mais páreo frente aos recém-chegados concorrentes de luxo como Dodge Dart, Ford Galaxie e Chevrolet Opala.

A sonolência que imperava nos corredores da fábrica, porém estava para acabar. A empresa sediada no distrito de Xerém, no município de Duque de Caxias-RJ, desenvolvia um sucessor para o seu veterano sedã de luxo.  A partir de 1970 a FNM dava o pontapé inicial no Projeto 144. A concepção do novo veículo foi feito a quatro mãos por engenheiros italianos e brasileiros e foi comandada pelo projetista italiano Ermano Cressoni. Durante o tempo em que estava sendo desenvolvido o futuro “Alfa” brasileiro, estava sendo testado na Itália.

A imprensa local alimentou o fato dizendo que aquele veículo seria um futuro Alfa Romeo a ser lançado no mercado italiano em breve. A revista italiana Gente Motori, num furo de reportagem conseguiu fotografar um modelo totalmente sem disfarce durante testes na pista particular da Alfa Romeo, na cidade de Balocco. A publicação foi a primeira a cantar a bola de que aquele modelo em questão era destinado ao mercado da América do Sul.

CORAÇÃO ÍTALO-BRASILEIRO

Em 25 de março de 1974 era lançado no Rio de Janeiro, o Alfa Romeo 2300. O novo Alfa tupiniquim impressionou. O modelo trazia um desenho próprio, ao invés de ser uma mera cópia de um modelo italiano. Havia uma leve inspiração no Alfetta italiano, lançado em 1972. O visual era bem atual com predomínio de linhas retas, ampla área envidraçada e porta-malas alto, tudo em dia com as últimas tendências europeias. O sedã media 4,70 de comprimento e tinha 2,72 metros de entreeixos. O 2300 carregava consigo o título de maior Alfa Romeo produzido no planeta.

Na frente havia os tradicionais quatro faróis, grade preta e ao centro o símbolo do “coure”. As laterais eram limpas e havia um discreto friso cromado ladeando as calhas do teto. Já as lanternas traseiras eram pequenas e traziam as luzes das setas na cor âmbar. As rodas esportivas, aro 14 pol com tala de 6 vinha com pneus 185 SR14, completavam o aspecto externo.

No tocante a mecânica, o motor era um quatro cilindros de 2.130cm³ com duplo comando de válvulas no cabeçote. Era alimentado por um carburador de corpo duplo que debitava 140cv e um torque de 21mkgf. Entre as inovações estavam as câmaras de combustão hemisféricas, válvulas de escape refrigeradas a sódio e o eixo de manivelas apoiado em cinco mancais. Um dado curioso era quanto ao seu tanque de combustível que comportava 100 litros. Isso se dava ao fato do fabricante recomendar a gasolina azul de alta octanagem, porém ajudaria tempos depois com a crise do petróleo em que os postos fechavam à noite e aos fins de semana.

O câmbio tinha cinco marchas, a embreagem com acionamento hidráulico e a tração era traseira, seguia a tradição da casa de Milão. Uma característica interessante era de que o 2300 podia manter velocidades constantes horas a fio. Para se ter uma idéia a Alfa destacava que a 135km/h o motor usava 50% da potência disponível. A velocidade máxima era de 170 km/h e acelerava de 0-100 em 11 segundos.

No campo da segurança, o 2300 inovava mais uma vez e trazia os freios a disco nas quatro rodas. A carroceria tinha zonas de deformação programa, além de apresentar um alto grau de rigidez a torção. E por fim, a coluna de direção deformável, ela partia-se em dois pedaços em caso de impacto de modo a não ir contra o peito do condutor.

Internamente podia transportar quatro pessoas confortavelmente em seus bancos revestidos em courvim, sendo os dianteiros individuais e reclináveis e o traseiro tinha um apoio de braço. O volante tinha três raios em alumínio e era revestido em madeira. O painel apresentava um desenho esportivo, com destaque para o amplo velocímetro e conta-giros e ao centro o medidor de nível de combustível e temperatura da água.  Entre os opcionais estavam o ar condicionado, console central e o rádio.

A primeira atualização veio em 1977, quando foram lançados os modelos B e Ti (sigla para Turismo Internacional) e junto novos acabamentos internos. Entre as novidades havia um novo painel de instrumentos, volante de plástico injetado com regulagem de altura e bancos revestidos em veludo. Por fora as maçanetas das portas passaram a ser embutidas.

A vedete, no entanto, era a versão 2300 Ti. Nele a mecânica recebia aprimoramentos técnicos com a inclusão de dois carburadores italianos Solex 40 de corpo duplo e fluxo horizontal, gerando 149cv e torque de 23mkgf. Para diferenciá-lo da versão B, eram colocados nas colunas traseiras o símbolo do trevo de quatro folhas, o famoso quadrifoglio. O que impressionava na versão Ti era seu desempenho, pois o modelo alcançava velocidade final de 175km/h e ia de 0-100 em 10 segundos, números respeitosos para um modelo de quatro cilindros e que rivalizava com seus concorrentes equipados com motores de seis cilindros em linha e V8.  Na propaganda, a Alfa Romeo enfatizava que o modelo 2300 era o carro importado fabricado no Brasil.

No interior, o painel recebia o acabamento em mogno legítimo e os instrumentos ficam mais completos com a inclusão do manômetro de óleo e voltímetro. A lista de itens de conforto era extensa: rádio toca-fitas com antena elétrica, banco traseiro com apoio de cabeça, cintos de três pontos, luzes de leitura e por fim cortina no vidro de trás para evitar a radiação solar. Sistema de arcondicionado era estendido aos passageiros de traz.

ITALIANO MINEIRO

Durante o ano de 1978, deixamos de ter a marca Alfa Romeo oficialmente no Brasil. Depois de vários boatos de encerramento de produção e mesmo a compra da marca italiana pela Volkswagen, o impasse foi finalizado com o controle acionário da Alfa Romeo, passando para as mãos da compatriota Fiat.

A produção dos 2300 foi transferida de forma gradual do Rio de Janeiro para Betim-MG e com isso o modelo ganhou qualidade na construção. Sanados alguns problemas crônicos, como a ferrugem precoce que atacava o modelo. Na lateral havia a inscrição: Produzido pela Fiat Automóveis S.A.

Em 1980, o Alfa Romeo ganha a direção hidráulica da marca ZF com sistema progressivo que se tornava mais firme em alta velocidade, outra primazia do modelo. No ano seguinte chega a versão a álcool, batizada de Ti álcool. O motor era o mesmo da versão SL, sofrendo alguns ajustes para queimar o combustível vegetal e sua potência era de 115cv. Não logrou êxito comercial e logo foi retirada de linha.

Outros aperfeiçoamentos foram feitos no decorrer dos anos e a modelo Ti4 passou a ser a única versão de acabamento disponível no 2300. Para fazer jus a fama do carro mais luxuoso do país, a Fiat tratou de equipá-lo com travas, vidros e retrovisores elétricos, tampa do combustível e porta-malas com acionamento elétrico e relógio digital no teto. 

Para dar um suspiro às vendas, em 1985 o 2300 sofre sua última mudança estética. Os para-choques passaram a ser de plástico mais envolventes, havia uma nova grade dianteira com o símbolo maior, faróis sem moldura, rodas de liga leve com desenho mais elaborado, novos retrovisores e, por fim, as lanternas traseira maiores, que lembravam as utilizadas pelo Alfa Romeo 6 italiano. No interior os bancos ganharam nova forração e o volante outro desenho. Na verdade o mercado já oferecia modelos mais modernos, com os mesmos equipamentos e praticando preços mais condizentes. Só para se ter uma idéia, com o preço de um Alfa Romeo 2300, podia-se adquirir dois Opalas Diplomatas.

O canto do cisne do Alfa Romeo 2300 aconteceu em 1986, quando o modelo ganhou novos revestimentos dos bancos. Nesse ano as vendas despencam chegando somente a 260 carros vendidos e os custos de produção tornam-se proibitivos. Em novembro de 1986 a Fiat decide encerrar de vez a produção do Alfa Romeo 2300. Nos 12 de mercado foram fabricados 29 mil unidades do modelo 2300. Curiosidades a parte, ainda no ano de 1986 a Alfa Romeo passa a fazer parte do Grupo Fiat lá na Itália.

MEU CORAÇÃO É ALFA ROMEO

Para conhecermos um pouco mais sobre a mística do Alfa Romeo 2300, fomos conversar com o empresário e colecionador de Alfa Romeo Marcelo Paolillo, conhecido como Mr.2300. Paolilllo nos contou que sua paixão pelo sedã de luxo começou ainda na infância, pois seu pai foi proprietário de um Alfa Romeo 2300 e foi nesse carro que ele passou boa parte de sua infância quando brincava de dirigi-lo.

O tempo passou e o empresário constituiu família, negócios e as lembranças do sedã italiano ficaram guardadas em sua memória. Foi durante o ano de 2006, quando viu um exemplar da revista 4Rodas Clássicos tendo como matéria de capa a história do Alfa Romeo 2300, toda a lembrança daquele carro veio em sua mente. “Cada página que eu folheava lembrava dos meus tempos de infância a bordo do Alfa Romeo 2300 meu pai. Aquela reportagem foi o estopim para  despertar a vontade de ter um modelo 2300”, disse Paolillo.

Para realizarmos essa reportagem Marcelo nos cedeu um modelo Alfa Romeo 2300 Ti 1984 preto. Esse carro tem algumas particularidades pouco comuns encontradas nos 2300. A primeira é e que trata-se de uma versão movido a etanol. A segunda é sobre o histórico do modelo, pois ele pertenceu ao governo do Estado de Minas Gerais, podendo ser considerada uma versão básica.

O empresário nos contou que soube do paradeiro desse Alfa Romeo por intermédio de um amigo. O 2300 estava na cidade de Itaúna, região metropolitana de Belo Horizonte. Ao saber do histórico do veículo, Paolillo resolveu enfrentar uma viagem de 600km para ver de perto o raro 2300 movido a combustível vegetal. Ao vê-lo pessoalmente não pensou duas vezes e acabou por arrematar aquele raro Alfa Romeo, que segundo Marcelo não necessitava de restauro e estava bastante íntegro. O negócio foi concluído e no mesmo dia ele voltou com carro para São Paulo rodando, sem nenhum tipo de contratempo mesmo tendo 30 anos de idade.

O fato curioso desse 2300, é dele  ser desprovido de alguns equipamentos que fizeram sua áurea de modelo luxo. Se por um lado há o ar condicionado e travas elétricas; itens como vidros elétricos, desembaçador do vidro traseiro e as cortinas contra luz solar não fazem parte da lista de acessórios. 

A bordo do Alfa Romeo 2300 chamam a atenção o conforto e tocada esportiva. Os bancos dianteiros ficam em posição baixa, a ampla área envidraçada e as estreitas colunas ajudam na visibilidade. Para pilotar a máquina o condutor pode ajustar a altura do volante, já a alavanca de câmbio fica em uma posição mais elevada, o que facilita as trocas de marchas. O motor de 2,3 litros movido a etanol apresenta acelerações vigorosas e sobe de giro rapidamente, além de roncar alto. Já o câmbio de cinco marchas apresenta trocas de marchas precisas.

Um dado curioso contado por Paolillo, é de que os italianos são gratos aos brasileiros por terem produzido um modelo único no mundo. Ele contou que em recente visita ao museu da Alfa Romeo na Itália, o diretor do centro histórico, Fabio Marco Fazio disse: “Somos muito orgulhosos de termos feito o Alfa Romeo no Brasil”.

 

MECÂNICO DOS ALFA ROMEO 2300

O mecânico Alvaro José Godinho, mais conhecido como Tico, contou que sua paixão pela marca Alfa Romeo teve início ainda na infância. Natural da cidade de Avaré, interior paulista, Godinho ficava impressionado com um modelo JK, o único de sua cidade.

Tempo passou, ele acabou vindo morar na capital São Paulo no início dos anos 70. Na época a Fiat estava recrutando mecânicos e selecionando concessionários para vender o modelo 147. “Quando tinha 21 anos vim em busca de oportunidade para trabalhar como mecânico na capital. Na ocasião a Fiat recrutava mecânicos para atuarem em sua rede de agências que estava sendo formada. Para minha surpresa pouco tempo depois comecei a trabalhar na oficina mecânica da concessionária Mirafiori, que vendia e prestava manutenção para o modelo 2300”, disse Álvaro.

Era a realização de um sonho poder trabalhar com a marca Alfa Romeo. Tico disse que a manutenção dos modelos 2300 tinha alguns segredos e que poucos mecânicos conheciam. Um desses segredos era quanto a ordem de explosão do motor 2,3 litros. “No motor do Alfa Romeo 2300 a ordem de explosão é 1-4-3-2, diferente da maioria dos carros que é 1-3-4-2. Os mecânicos mais antigos raspavam essa sequência do bloco para dificultar a manutenção e com isso dificultavam a vida dos mecânicos mais jovens”, confidenciou Godinho.

Ainda hoje são poucos os mecânicos que prestam manutenção nos modelos 2300. Segundo Tico, fazer a regulagem certa dos carburadores Solex 40 requer ouvido e precisão, já que o mecânico tem que ficar de ouvido no som do escapamento e procurar fazer regulagem homogênea dos carburadores para que não falhe nas acelerações. Quanto às peças, muitas podem ser utilizadas de outros modelos. “A pastilha de freio da roda dianteira pode ser as mesmas da Kombi, porém precisam ser lixadas levemente já que são mais grossas. Já para os discos traseiros a pastilha da VW Brasília serve perfeitamente”, sugere o mecânico.

Segundo o Álvaro, a parte mecânica mais complexa e cara para consertar é o câmbio de cinco marchas. Se um dos anéis sincronizadores vir a quebrar será preciso importar da Itália, já que a peça é a mesma utilizada no caixa de marcha do modelo Giulia GTA/GTV. Por outro lado, as cruzetas do cardã podem ser substituídas pelas da picape Chevrolet C-10.